Internacional

O segredo por trás da proibição da palavra ‘camponês’ na Colômbia

O governo colombiano determinou a eliminação do termo “camponês” de todos os documentos oficiais, substituindo-o por “pequenos empresários do campo”. A medida, anunciada pelo ministro da Agricultura perante o Congresso, acendeu um alerta imediato: a mudança semântica pode redefinir quem tem acesso a recursos públicos no setor rural.

Mas a troca de rótulo esconde uma disputa muito maior do que vocabulário.

A frase que incendiou o Congresso

Na terça-feira (8), o ministro Indalecio Dangond subiu à tribuna das comissões econômicas e foi direto: “‘Camponês’ é um termo pejorativo. Aqui, vamos elevar o status daqueles que produzem os alimentos do país”. A declaração ofuscou a pauta orçamentária do agronegócio e transformou a sessão em um debate identitário.

Dias antes, o portal La Silla Vacía já havia exposto orientações internas à Agência Nacional de Terras para evitar a palavra. A oficialização pelo ministro, no entanto, deu ao tema proporção nacional.

A reação foi imediata e transversal.

Direitos constitucionais em xeque

A deputada Mafe Carrascal Rojas, do Pacto Histórico, classificou a iniciativa como “barbárie” em um país onde o campesinato sofreu historicamente com violência e desapropriação. A defensora do Povo, Iris Marín Ortiz, foi além: lembrou que a Constituição colombiana reconhece o camponês como “sujeito de direitos e proteção especial” desde 2023.

Para a defensoria, a identidade camponesa carrega uma relação particular com a terra que não se resume a uma categoria produtiva. Apagar o termo, argumenta, é apagar a base legal que garante tratamento diferenciado a essa população.

Por que os números não fecham

A justificativa do ministério apoia-se em dados do Dane (Departamento Administrativo Nacional de Estatística). Segundo o órgão, a Colômbia contava com quase 15 milhões de agricultores em 2026 — 28,5% da população. No entanto, apenas 16.775 pessoas se autodeclararam camponesas no censo de 2023.

A disparidade expõe o nó da questão: “camponês” carrega conotação depreciativa no país, semelhante a “caipira” no Brasil. O governo usa esse dado para sustentar que o termo está em desuso e que a nova nomenclatura reflete a realidade produtiva.

Críticos rebatem: a subnotificação ocorre justamente pelo estigma que o poder público agora reforça.

A batalha pela identidade que vem de 2018

O debate não é novo. Na negociação da Declaração da ONU sobre Direitos dos Camponeses, a União Europeia propôs retirar a palavra do título alegando que “peasants” soa discriminatório em inglês. A Via Campesina internacional rejeitou a emenda: quando a identidade é alvo de discriminação, ela deve ser protegida — não apagada.

No Brasil rural, a lógica seria deixar de reconhecer “quilombola” ou “ribeirinho” porque os termos carregam preconceito histórico. A comparação ilustra o risco de decisões administrativas sobre identidades coletivas.

O que muda na prática para o orçamento do agro

Para o advogado Carlos Quesada, doutor pela Universidade Nacional da Colômbia, a medida revela a visão de desenvolvimento rural do governo Espriella: foco no crescimento econômico via iniciativa privada, em detrimento da sustentabilidade social prevista na Constituição.

  • Recursos escassos: ao retirar o camponês da categoria de “sujeito de direitos”, o Estado deixa de ter obrigação legal de direcionar verbas específicas para esse grupo.
  • Déficit herdado: a gestão anterior (Petro) deixou rombo nas contas públicas; a reclassificação pode ser uma forma de conter gastos obrigatórios.
  • Política de Estado vs. governo: a entidade Dignidad Agropecuaria Colombiana defende que apoio ao campo não pode oscilar conforme a ideologia de quem ocupa a Casa de Nariño.

Na prática, pequenos produtores que não se enquadram na lógica empresarial — agricultura familiar, comunitária, de subsistência — correm o risco de ficar invisíveis nos editais de crédito, assistência técnica e reforma agrária.

O que observar daqui para frente

Três sinais dirão se a mudança é apenas simbólica ou estrutural: (1) a publicação de decretos regulamentando a nova terminologia em programas de crédito rural; (2) a reação do sistema judiciário a eventuais ações de inconstitucionalidade; (3) a execução orçamentária do Ministério da Agricultura nos próximos trimestres — especialmente a fatia destinada a “agricultura familiar” versus “empreendedorismo rural”.

Para investidores e gestores de fundos com exposição ao agronegócio andino, o risco político não está na troca de palavras, mas na possibilidade de que a reclassificação anteceda uma desmontagem silenciosa das salvaguardas fundiárias e sociais. Acompanhar a tramitação do próximo Plano Nacional de Desenvolvimento será o termômetro decisivo.