Donald Trump classificou o Canadá como o “pior país para negociar” do mundo, mas admitiu que Ottawa está “desesperada” por um acordo. A contradição expõe o xadrez geopolítico que pode redesenhar o comércio na América do Norte nos próximos meses.
O presidente dos EUA confirmou que novas tarifas sobre veículos e autopeças canadenses entram em vigor no dia 1º de janeiro. A medida atinge diretamente a cadeia produtiva integrada há décadas.
Por que o tom mudou de “ótimo acordo” para “pior inimigo” em 24 horas
No sábado, Trump afirmou que um pacto comercial poderia sair “em breve” e elogiou o interesse canadense. No domingo, a retórica endureceu: ele acusou o Canadá de tratar agricultores americanos de forma injusta e cobrar tarifas inaceitáveis.
A virada coincidiu com o anúncio do primeiro-ministro Mark Carney. Ele revelou negociações avançadas com a União Europeia para uma “aliança única”, incluindo um status de membro associado inédito para o bloco europeu.
Bruxelas, historicamente rígida nas regras de adesão, estaria aberta a criar essa nova categoria jurídica exclusivamente para acomodar Ottawa. O movimento sinaliza que o Canadá não está blefando ao buscar alternativas.
O impacto direto no seu bolso e na cadeia de suprimentos
A indústria automotiva é o termômetro mais sensível. Carros, caminhões e peças cruzam a fronteira múltiplas vezes antes do produto final. Veja o que está em jogo:
- Tarifa zero histórica: O setor opera sob regras de integração profunda desde o Acordo Autopacto (1965) e reforçado pelo USMCA/T-MEC.
- Custo estimado: Analistas projetam aumento de US$ 3.000 a US$ 6.000 por veículo se a tarifa de 25% se concretizar.
- Data crítica: 1º de janeiro de 2025 — início da vigência das novas alíquotas anunciadas.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor. O agronegócio americano pressiona a Casa Branca contra as barreiras canadenses à importação de laticínios e aves — um ponto sensível na política interna dos EUA.
Cenários para o primeiro trimestre de 2025
Três desfechos são plausíveis, segundo observadores de mercado em Washington e Ottawa:
- Acordo setorial rápido: Foco em automóveis e laticínios para aliviar a pressão imediata, adiando questões estruturais.
- Guerra de atrito prolongada: Tarifas entram, Canadá retalia (como fez em 2018/2019) e a aproximação com a UE acelera.
- Judicialização: Questionamentos na OMC e sob o próprio T-MEC travam a aplicação prática por meses.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, reforçou que os EUA exigem negociação “de boa-fé”. A expressão funciona como gatilho: se Ottawa avançar no pacto com a UE, Washington pode alegar má-fé e endurecer ainda mais.
O que observar daqui para frente
Marque três datas no radar: a posse do novo Congresso americano em janeiro, a reunião de ministros do T-MCA prevista para o primeiro trimestre e a resposta formal da Comissão Europeia à proposta canadense de status associado. Quem diversificar fornecedores e mercados agora terá vantagem competitiva quando a poeira baixar — independentemente de qual cenário prevaleça.
