O ministro Márcio Elias Rosa confirmou que equipes do Brasil e dos Estados Unidos voltarão a sentar à mesa nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, em Milwaukee, para discutir o pacote de sobretaxas que atinge exportações brasileiras. O encontro ocorre no âmbito do G20 e marca a segunda rodada de conversas desde o telefonema entre Lula e Trump, em agosto.
A tensão comercial escalou em julho, quando o USTR aplicou 25% de tarifa extra sobre uma lista longa de produtos nacionais. A medida pegou em cheio setores que somam bilhões em vendas anuais ao mercado americano. Agora, a expectativa é saber se há espaço real para reversão ou apenas gestão de danos.
O tamanho do impacto nas exportações brasileiras
A sobretaxa de 25% recaiu sobre itens que vão de ferro e aço a calçados, passando por açúcar, etanol, medicamentos e maquinário agrícola. Em seguida, veio um acréscimo de 12,5% sobre outros produtos, sob a justificativa de que o Brasil não coíbe com eficácia a entrada de mercadorias feitas com trabalho forçado.
Juntos, os dois pacotes atingem cadeias que empregam milhões e respondem por parcela significativa da pauta exportadora para os EUA. Dados do MDIC mostram que, só no primeiro semestre de 2026, as vendas desses segmentos aos americanos superaram US$ 12 bilhões.
- Ferro e aço: principal alvo histórico de barreiras comerciais
- Calçados e vestuário: setores de alta intensidade de mão de obra
- Açúcar e etanol: concorrência direta com produtores do cinturão do milho
- Farmacêuticos e máquinas: itens de maior valor agregado
O canal direto entre Brasília e Washington
A ligação de 21 de agosto durou 1 hora e 20 minutos. Segundo o Planalto, o tom foi cordial e resultou na criação de um canal permanente de diálogo entre os dois governos. Dez dias depois, Rosa e Greer fizeram a primeira reunião virtual para desenhar a agenda técnica.
O encontro em Milwaukee será presencial — o que costuma acelerar negociações travadas em videoconferências. A delegação brasileira leva dados setoriais detalhados e propostas de reciprocidade em áreas sensíveis para os americanos, como compras governamentais e propriedade intelectual.
Cenários possíveis para os próximos meses
Analistas de comércio exterior veem três desfechos prováveis. O primeiro: redução parcial das alíquotas em troca de compromissos brasileiros em fiscalização trabalhista e ambiental. O segundo: manutenção das tarifas com criação de cotas de isenção para produtos estratégicos. O terceiro: impasse prolongado, jogando a definição para 2027.
O que muda a equação é o calendário eleitoral americano. Com a disputa presidencial em pleno vapor, qualquer concessão de Trump vira munição para adversários. Do lado brasileiro, há pressão do Congresso e de entidades setoriais por resposta firme — mas sem romper pontes com o maior parceiro comercial individual.
O que observar daqui para frente
Fique atento a três sinais nas próximas semanas: anúncio de grupos de trabalho setoriais pós-Milwaukee, movimentação no Congresso brasileiro sobre retaliação simulada (tarifa-espelho) e eventuais declarações de Greer sobre “progresso substantivo”. A reunião do G20 não resolve a disputa, mas define se ela vira negociação estruturada ou guerra de desgaste. Para o empresário que exporta, a leitura prática é: planeje cenários com e sem tarifa, mas não congele investimentos — a janela de definição deve se fechar ainda no primeiro trimestre de 2027.
