A Diageo, gigante por trás de Johnnie Walker e Smirnoff, acaba de colocar no mercado brasileiro um selo de autenticação baseado em inteligência artificial. A meta é barrar um crime que, só no ano passado, matou 25 pessoas intoxicadas por metanol em bebidas adulteradas.
A tecnologia transforma cada garrafa em um item rastreável por smartphone. Mas a executiva à frente da operação no país avisa: o selo sozinho não encerra o problema.
Como funciona o “dedo digital” da garrafa
Batizado de Selo Drink Seguro, o recurso usa uma impressão digital única — conhecida tecnicamente como fingerprint — impressa em cada unidade. Ao apontar a câmera do celular para o rótulo, uma IA valida a autenticidade em segundos.
Se o código não for reconhecido, o consumidor é direcionado a um formulário para denunciar o produto suspeito. O desenvolvimento coube à Securetrace, mesma empresa responsável pelos elementos holográficos da cédula de R$ 100 e pelas películas de segurança do passaporte brasileiro.
- Combinações possíveis: mais de 27 trilhões;
- Categorias cobertas: uísque, gim, vodca, tequila, licor e rum;
- Itens na fase inicial: 49 SKUs do portfólio da Diageo.
O tamanho do problema: 4,7% do mercado e vidas perdidas
Dados da Euromonitor International, encomendados pela Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD), mostram que a falsificação responde por 4,7% do volume total de destilados vendidos no Brasil. Em números absolutos, o impacto sanitário assusta.
O Ministério da Saúde contabilizou 73 intoxicações por metanol ligadas a bebidas fraudadas em 2025, com 25 óbitos. Nos oito primeiros meses de 2026, já são 17 casos confirmados e outros 23 sob investigação. A crise empurrou o setor formal a buscar respostas tecnológicas imediatas.
Lançamento escalonado e o que fica de fora
A campanha oficial começa nesta terça-feira (15), embora garrafas com a identificação já circulem em pontos de venda. A meta é cobrir todos os 49 itens selecionados até o fim do ano.
Ficam de fora, num primeiro momento, a marca Ypióca e produtos de consumo imediato, como Smirnoff Ice. A Diageo não revela o investimento total no projeto.
“Tecnologia sozinha não resolve”, avisa CEO
Paula Lindenberg, presidente da Diageo Brasil, classifica a ferramenta como um “recurso importante”, mas insiste na necessidade de leis mais duras e atuação conjunta com o poder público. “É um problema complexo que requer consequências à altura do dano causado”, afirmou.
A executiva destaca que a falsificação não é apenas uma perda de receita para a indústria, mas uma ameaça direta à saúde pública. O selo, portanto, funciona como uma barreira de entrada, não como a solução definitiva.
O movimento do setor e a recusa em impor padrão único
A Diageo integra a ABBD ao lado de concorrentes de peso — Pernod Ricard, Bacardi Martini, Beam Suntory e Brown Forman. Questionada se a tecnologia seria aberta às rivais, Paula foi direta: cada empresa deve escolher a solução que melhor se adapta ao seu portfólio.
Não há intenção de impor um padrão único. “Tudo que proteja o setor, a categoria e o consumidor é bem-vindo”, completou, defendendo que a criminalização efetiva da fraude é o caminho estrutural.
O que observar daqui para frente
Três vetores definirão se a iniciativa escala ou permanece isolada: a adesão do varejo e de bares na fiscalização visual, a velocidade de resposta do legislativo para endurecer penas e a disposição das concorrentes em adotar tecnologias semelhantes — ou interoperáveis. Para o investidor, o termômetro está na redução da participação do mercado informal nos próximos balanços trimestrais da ABBD.
