Economia

Stellantis fatura R$ 11 mil peças reusadas em 1 ano: o segredo da economia circular que seu mecânico não conta

Centro de Desmontagem Veicular Stellantis em Osasco com peças automotivas recondicionadas para economia circular
Stellantis reaproveita 11 mil peças em 1 ano no Centro de Desmontagem de Osasco (SP)

A Stellantis desmontou 1.150 veículos e colocou no mercado mais de 11 mil componentes reaproveitados em apenas 12 meses de operação do seu Centro de Desmontagem Veicular em Osasco (SP). O número impressiona, mas esconde uma transformação silenciosa que pode reduzir a conta da sua próxima revisão em até 40%.

O balanço do primeiro ano da Circular AutoPeças revela 20 mil peças recuperadas para venda e 862 toneladas de materiais encaminhados à reciclagem. A unidade tem capacidade ociosa: consegue processar até 8 mil automóveis por ano. “Estamos apenas no começo. Validamos processos e provamos que a circularidade funciona no setor”, afirma Maiara Castro, vice-presidente de Economia Circular para a América do Sul.

Por que seu bolso deveria se importar com isso

O catálogo de remanufaturados da operação já oferece componentes com garantia de 12 meses e preços até 40% menores que os equivalentes novos. Para o reparador, a margem melhora. Para o dono do carro, a conta fecha. Mas a maioria dos motoristas nem sabe que essa opção existe.

A barreira não é técnica. É de informação. Peças reutilizadas, reparadas e remanufaturadas passam por processos distintos — e entender a diferença é o primeiro passo para confiar na compra:

  • Reutilização: componente avaliado como apto retorna direto ao uso;
  • Reparo: falha específica corrigida para restaurar função;
  • Remanufatura: recuperação industrial completa com testes de desempenho.

Todas saem com rastreabilidade, nota fiscal e registro no Detran-SP. O que falta é o mecânico apresentar a alternativa na hora do orçamento.

O elo que ainda está fraco na cadeia

“Nosso desafio é conquistar a confiança do consumidor. Quem usa uma vez, percebe a qualidade e vira propagador”, diz Castro. A oficina é o ponto de decisão. Se o reparador não explica, o cliente paga pelo novo sem questionar.

Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor: os fluidos. Cada veículo desmontado gera óleo lubrificante usado que, até pouco tempo, virava passivo ambiental. Agora, vira matéria-prima.

O óleo que volta para o motor

A parceria entre Stellantis, Lwart Soluções Ambientais e Motul fechou o ciclo. A Lwart coleta o óleo contaminado em mais de 3.800 municípios brasileiros e o rerrefina em sua planta de Lençóis Paulista (SP), com capacidade para 240 milhões de litros por ano. O óleo básico resultante entra na formulação da linha Motul NGEN Circular AutoPeças.

Dependendo da aplicação, os novos lubrificantes carregam entre 30% e 70% de conteúdo rerrefinado. Na prática: o óleo drenado do seu carro pode voltar ao mercado como parte de um produto novo, certificado e com performance equivalente.

O que observar daqui para frente

A operação de Osasco provou viabilidade técnica e econômica. O próximo passo é escala — e ela depende de dois vetores: capacitação de oficinas para ofertar peças circulares com segurança jurídica e comunicação clara ao consumidor final sobre rastreabilidade e garantia. Quem antecipar esse movimento captura margem e fideliza cliente. Quem ignorar, continua competindo só por preço de peça nova.