Tecnologia

Big techs controlam startups sem comprá-las: o novo jogo do poder na IA

Executivos de big techs manipulando marionetes de startups de IA com fios invisíveis, simbolizando controle sem aquisição
Gigantes da tecnologia exercem domínio sobre startups de IA através de estruturas alternativas, não compras.

As maiores empresas de tecnologia do mundo descobriram como comandar ativos estratégicos de inteligência artificial sem assinar um único contrato de aquisição. Um levantamento revela que, em apenas dois meses, o valor travado em estruturas alternativas de controle superou em quase quatro vezes o gasto com compras tradicionais.

O fenômeno redefine o que significa “ser dono” de uma companhia no setor mais quente do momento. E expõe uma lacuna perigosa nas estatísticas oficiais de mercado.

Os números que escapam dos radares de M&A

Entre julho e agosto, a consultoria Windsor Drake mapeou 40 transações relevantes no ecossistema de IA. Trinta seguiram o roteiro clássico: aquisição de controle majoritário, totalizando US$ 20,5 bilhões. As outras dez, porém, moveram US$ 75 bilhões sem transferir a propriedade das ações.

Essas operações alternativas se dividem em três grandes pilares:

  • Contratos de capacidade computacional: US$ 59 bilhões em cinco acordos de longo prazo
  • Licenciamento + contratação de equipes: US$ 8,5 bilhões em duas operações
  • Investimentos minoritários atrelados a acordos comerciais: US$ 7,5 bilhões

A diferença fundamental está no fluxo de caixa. Uma compra convencional concentra o desembolso no fechamento. Já compromissos de infraestrutura e licenças se estendem por anos — às vezes décadas — mas garantem acesso preferencial ao que realmente gera valor: modelos, chips e talento.

Nvidia: o arquiteto silencioso da nova ordem

A fabricante de GPUs protagonizou quatro das dez estruturas alternativas identificadas. O caso mais emblemático envolve a Poolside, startup de codificação assistida por IA. Em agosto, a Nvidia pagou US$ 6 bilhões por uma licença não exclusiva da tecnologia e injetou mais US$ 1 bilhão como investimento minoritário, avaliando a empresa em US$ 12 bilhões pré-money.

Resultado: a Poolside permanece independente no papel, mas sua principal tecnologia e seu roadmap de hardware passam a orbitar a estratégia da Nvidia.

Outro movimento de escala industrial é o projeto PORTS-Pike, em Ohio. A Nvidia aportou US$ 1,5 bilhão na SB Energy e ofereceu até US$ 105 bilhões em garantias de crédito para sustentar um contrato de capacidade de 20 anos da OpenAI. Não há aquisição. Há uma teia financeira que amarra o futuro computacional de um dos laboratórios mais importantes do planeta.

Controle societário versus controle econômico

“Controle societário e controle econômico não são necessariamente a mesma coisa”, explica Rodrigo Baraldi, sócio-fundador do Baraldi Advogados, que assessora transações desse perfil. “A questão já não é apenas quem possui as ações, mas quem passou a ter influência relevante sobre os ativos que sustentam a capacidade competitiva do negócio.”

Na prática, uma startup pode manter seu CNPJ, seu conselho e sua marca — enquanto licencia seu modelo principal para uma big tech, perde engenheiros-chave para essa mesma empresa, recebe um aporte minoritário e passa a depender dela para treinar a próxima geração de modelos.

Essa configuração cria uma zona cinzenta regulatória. Órgãos antitruste costumam olhar para concentrações de participação acionária. Mas quando o poder de veto sobre decisões estratégicas vem de contratos comerciais e dependência de infraestrutura, a análise fica muito mais complexa.

O que mais movimentou o tabuleiro no período

Além das estruturas alternativas, o levantamento registrou aquisições tradicionais de peso:

  • Stripe adquiriu a OpenRouter por mais de US$ 7 bilhões
  • Thoma Bravo comprou a Accelerant por mais de US$ 4 bilhões
  • Visa levou a BioCatch por US$ 2,4 bilhões

Na camada de infraestrutura, os compromissos de capacidade também impressionam: CoreWeave fechou mais de US$ 25 bilhões em novos contratos com clientes; AMD e Core Scientific assinaram acordo de cerca de US$ 14 bilhões; Anthropic selou parceria de US$ 10 bilhões com Volta e Bitdeer.

O que observar daqui para frente

A tendência não substitui o M&A tradicional — ela expande o arsenal. Para investidores e conselhos de administração, o recado é claro: avaliar a saúde competitiva de uma empresa de IA exige olhar além da tabela de acionistas. Contratos de fornecimento de GPUs, cláusulas de exclusividade em licenciamento e dependência de um único cliente hyperscaler podem valer mais que 51% das ações.

Reguladores já começam a mapear essas estruturas. A Comissão Europeia e o Departamento de Justiça dos EUA sinalizaram que acordos de “quase-controle” via infraestrutura e talento entram no radar antitruste. No Brasil, o Cade acompanha movimentos semelhantes em setores de alta concentração tecnológica.

Para quem negocia, a lição prática: ao vender acesso a modelo, equipe ou capacidade, pergunte-se qual parcela da autonomia estratégica está sendo cedida — e por quanto tempo. O contrato de hoje pode ditar o teto de valorização de amanhã.