O BIS (Banco de Compensações Internacionais) acaba de soltar um sinal de alerta vermelho: a euforia que fez as Bolsas globais dispararem nos últimos dois anos, impulsionada pela inteligência artificial, está apresentando “sinais crescentes de vulnerabilidade”. O aviso vem justamente no dia em que as ações do setor despencam após gigantes da tecnologia admitirem que o ritmo de desenvolvimento precisa frear.
Frank Smets, chefe de análise econômica do órgão, foi direto: o ímpeto que sustentou mercados e economia global no último ano começou a rachar. A pergunta que fica é até onde isso pode ir — e quem vai pagar a conta.
O que mudou na cabeça dos investidores
Segundo o relatório divulgado nesta segunda (14), o apetite por risco segue “notavelmente resiliente”, mas a cautela está aumentando. A rentabilidade futura dos investimentos em IA entrou no radar de preocupação, especialmente porque a alavancagem das big techs americanas não para de subir.
No domingo (13), executivos de várias líderes do setor alertaram que a velocidade do avanço tecnológico precisa ser contida para evitar riscos à humanidade. Na segunda, o mercado reagiu: papéis ligados à IA caíram forte. A coincidência de datas não é detalhe — é sintoma.
Dívida explosiva e financiamento opaco
O ponto central do relatório não é a tecnologia em si, mas como ela está sendo bancada. Os números assustam:
- 2010: US$ 22 bilhões em dívida das techs (22% do crédito privado total)
- 2025: mais de US$ 1 trilhão (44% do crédito privado)
- Total em aberto: quase US$ 2,5 trilhões em empréstimos de todo tipo
“O que mais nos preocupa é o rápido aumento da dívida e da alavancagem”, disse Smets. “Muitos acordos são opacos, ficam fora do balanço e têm uma circularidade perigosa.” Tradução: ninguém sabe direito quem deve a quem, nem quanto.
Efeito cascata nos títulos públicos
Essa montanha de dívida corporativa não vive isolada. O BIS aponta que as emissões de centenas de bilhões de dólares pelas empresas de IA podem estar empurrando para cima o custo de financiamento dos governos — justamente quando as finanças públicas já estão pressionadas por tensões geopolíticas e volatilidade energética.
Smets chama de “fragilidade fiscal”. Não há sinais de tensão generalizada por enquanto, mas a combinação de juros altos, dívida pública recorde e endividamento privado opaco cria um cenário onde qualquer solavanco pode virar crise.
Comunicação dos bancos centrais: mais complexa, menos clara
Curiosamente, o BIS usou IA para analisar milhares de discursos e relatórios de bancos centrais. O resultado: indicadores de “inflação subjacente” (que excluem energia) estão sendo citados com mais frequência e variedade.
O diagnóstico é irônico: a tecnologia que promete eficiência está tornando a comunicação das autoridades monetárias mais complexa — e potencialmente menos eficaz para o público. “A crescente complexidade das mensagens pode representar desafios para uma comunicação eficaz”, admite o próprio relatório.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o próximo capítulo: a capacidade das big techs de transformar investimentos bilionários em lucro real; a trajetória dos juros longos nos EUA e Europa; e a disposição regulatória para iluminar os cantos escuros do financiamento privado. Se a rentabilidade da IA não aparecer nos balanços dos próximos trimestres, a “resiliência notável” citada por Smets será testada como nunca. O relatório não prevê crash — mas deixa claro que as condições para um existem.
