Economia

R$ 30 bi em crédito barato: o que muda para motoristas e o risco que ninguém comenta

Motorista de aplicativo recebendo chaves de carro novo financiado pelo programa Move Brasil
Programa Move Brasil libera R$ 30 bi para financiamento de veículos a motoristas de app, taxistas e condutores de vans escolares

O presidente Lula sancionou nesta segunda-feira (14) a prorrogação do programa Move Brasil, liberando R$ 30 bilhões em financiamento subsidiado para compra de veículos por motoristas de aplicativo, taxistas, entregadores e, agora, condutores de vans escolares. A medida evita o fim abrupto do programa, previsto para amanhã, mas esconde tensões entre bancos, governo e a categoria que podem ditar o ritmo dos desembolsos nos próximos meses.

Até aqui, R$ 5,1 bilhões já saíram do papel — 48 mil automóveis e 19 mil motocicletas financiados. O número parece expressivo, mas a fila de espera expõe um gargalo: milhares de trabalhadores ficaram de fora por restrições de crédito impostas pelas instituições financeiras.

Por que os bancos travam a liberação

A taxa fixada pelo Conselho Monetário Nacional — 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres — está menos da metade da média de mercado, que ronda 28%. Para as instituições, o spread comprimido reduz o incentivo a assumir o risco, mesmo com a garantia parcial do FGI (Fundo Garantidor para Investimentos), operado pelo BNDES com recursos do Tesouro.

O fundo não cobre 100% do valor emprestado. Na prática, os bancos arcam com a diferença em caso de inadimplência. O ministro Guilherme Boulos classificou a postura das instituições como “excessivamente restritiva” e cobrou mais respeito aos trabalhadores.

As mudanças que tentam destravar o fluxo

Para acelerar os desembolsos, o governo incluiu duas alterações relevantes no texto sancionado:

  • Permissão para financiar veículos seminovos, não apenas zero-quilômetro;
  • Teto do financiamento elevado de R$ 150 mil para R$ 200 mil.

A expectativa é ampliar o público elegível e reduzir a rejeição por perfil de crédito. Ainda não há projeção oficial de quanto isso deve injetar de novos recursos no curto prazo.

Vans escolares: inclusão com asterisco

A grande novidade da sanção é a entrada dos motoristas de transporte escolar no programa. Contudo, as condições específicas — taxas, prazos, garantias — dependem de resolução futura do Conselho Monetário Nacional. Sem data definida, a categoria segue em compasso de espera.

Enquanto isso, entregadores e motoristas de aplicativo mantêm pressão por pautas paralelas: a taxa mínima de R$ 10 por entrega e a revisão de regras que impedem cadastro de quem tem antecedentes criminais. Lula defendeu a ressocialização em discurso, mas não houve compromisso regulatório imediato.

O cálculo político por trás do timing

A sanção ocorre em semana sensível: pesquisa Quaest divulgada recentemente mostrou Lula dois pontos atrás de Flávio Bolsonaro (PL) na preferência do eleitorado. Motoristas e entregadores formam um contingente expressivo — historicamente mais alinhado à direita — que o governo tenta atrair com agendas concretas nos últimos meses de mandato.

Boulos afirmou que o Move Brasil deixa de ser medida emergencial e vira política pública permanente. A declaração sinaliza intenção de manter o fluxo de recursos além do ciclo eleitoral, mas dependerá de espaço fiscal e apetite dos bancos.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar se o programa escala ou estagna: a adesão dos bancos privados às novas condições, a velocidade do CMN em regulamentar as vans escolares e a capacidade do governo de comunicar as regras ao público-alvo — falha admitida internamente. Para investidores e gestores de frotas, o spread entre taxa do programa e taxa de mercado continua sendo o termômetro mais confiável da disposição do crédito fluir.