Existe um grupo de 30 milhões de brasileiros que não se encaixa nem nos millennials nem na geração Z — e são eles que estão ditando as regras do jogo no mercado de trabalho e no varejo. Chamados de zillennials, nascidos entre 1993 e 1998, eles representam a ponte entre dois mundos que mal se falam.
Ignorar essa fatia demográfica não é apenas um erro de segmentação; é deixar dinheiro na mesa. Entenda por que.
Quem são — e por que ninguém concorda com as datas
Não há consenso acadêmico. O Pew Research fixa os millennials até 1996. Já a McKinsey estica até 2000. No Brasil, o IBGE não reconhece a classificação. O termo “zillennial” surgiu no TikTok por volta de 2020 e virou atalho de marketing para quem cresceu com internet discada, mas amadureceu com smartphone no bolso.
A faixa mais aceita: nascidos entre 1993 e 1998. Hoje, têm entre 26 e 31 anos.
- Millennials puros: viram a transição analógica → digital na adolescência.
- Gen Z puros: não conhecem mundo sem banda larga e redes sociais.
- Zillennials: viveram as duas transições — ORKUT e TikTok, MSN e WhatsApp, locadora e streaming.
O poder de compra que os relatórios ignoram
Dados da Kantar IBOPE Media mostram que essa faixa etária responde por R$ 420 bilhões em renda disponível anual no Brasil. São 22% da força de trabalho formal, mas ocupam 38% dos cargos de gestão júnior e pleno em empresas de tecnologia e varejo.
O diferencial: decidem compras da casa dos pais (carros, eletros, seguros) e influenciam escolhas dos irmãos mais novos (moda, games, fintechs). Dupla alavancagem.
Mas o efeito mais relevante aparece no comportamento de marca.
Lealdade zero, reputação tudo
Zillennials não compram “porque sempre usei”. Comparam preço no Zoom, leem Reclame Aqui, assistem review no YouTube e fecham no app com cashback. Um estudo da Opinion Box de 2023 revelou:
- 71% trocam de marca após uma experiência ruim no atendimento digital.
- 64% pagam mais por empresas com propósito socioambiental comprovado — greenwashing é detectado em minutos.
- 58% descobriram o último produto que compraram via creator de nicho, não anúncio tradicional.
Para o varejo, isso significa: funil de descoberta fragmentado, ciclo de decisão curto, churn altíssimo.
No trabalho: a geração “híbrida nativa”
Enquanto millennials lutaram pelo home office e Gen Z exige flexibilidade total, zillennials já nasceram gerenciando times remotos no Discord. Sabem fazer reunião assíncrona no Notion, resolver bug no Slack e fechar deal no Zoom — tudo no mesmo dia.
Pesquisa da Robert Half (2024) aponta que 46% dos líderes de TI e marketing preferem contratar nessa faixa por “curva de adoção de ferramentas perto de zero”.
O lado invisível: são a primeira geração a sentir burnout antes dos 30. Ansiedade climática, instabilidade econômica e pressão por “side hustle” criam um perfil de funcionário produtivo, mas frágil em retenção longa.
O que observar daqui pra frente
Três sinais claros para os próximos 18 meses:
- Financeirização do consumo: zillennials lideram adoção de BNPL (compre agora, pague depois) e investimentos fracionados — quem não oferecer parcelamento inteligente perde a venda.
- Creator economy B2B: decisores de compra nessa faixa confiam mais em newsletters de especialistas e podcasts de nicho do que em white papers corporativos.
- Saúde mental como benefício obrigatório: empresas que não tiverem política clara de bem-estar (terapia subsidiada, semana de 4 dias, right to disconnect) verão turnover acima de 35% ao ano nesse grupo.
Zillennials não são “millennials tardios” nem “Gen Z adiantados”. São a única geração que fala as duas línguas nativamente. Quem aprender a traduzir — no produto, na cultura, na comunicação — captura um mercado que todos os outros estão lendo errado.
