Duas escolas públicas de Mato Grosso do Sul transformaram o desperdício invisível dos corredores em ciência aplicada e estão entre as 30 semifinalistas do Solve for Tomorrow Brasil 2026. O recurso? Água condensada de aparelhos de ar-condicionado — litros que escorriam pelo chão e agora irrigam hortas verticais e alimentam sistemas de aquaponia. A pergunta que fica: quantos litros sua escola ou empresa joga fora todo dia?
A conta que ninguém fazia
Na Escola Estadual Professora Clarinda Mendes de Aquino, em Campo Grande, a poça no corredor virou problema de matemática. O professor Reginaldo Vantini Júnior pediu que alunos medissem o gotejamento de um único aparelho por uma hora. O resultado escalado para 365 dias assustou a turma: centenas de litros anuais indo para o ralo.
Não bastou quantificar. A turma partiu para a automação. Nasceu a EcoHorta Inteligente: 40 vasos verticais irrigados exclusivamente com água de condensação, monitorados por sensores de umidade do solo, temperatura, umidade relativa, pressão atmosférica e vazão. Tudo em tempo real, com gráficos gerados pelos próprios estudantes.
Isabela Lopes Rodrigues, 17 anos, resume o salto: “Não era só tirar a água do meio do caminho. Era dar propósito a ela.”
Do corredor para o aplicativo
A classificação para a semifinal trouxe mentoria técnica — e ambição. A equipe desenvolve agora um aplicativo para que qualquer morador calcule quanto seu aparelho doméstico produz e como reaproveitar em jardins, vasos ou limpeza de quintal. A meta: escalar a solução além dos muros da escola.
Rafael Moraes Lemes Pereira, 17, conta que a matemática saiu do caderno: “Comecei a ver números no dia a dia. Quantos litros pingam no meu quarto? Como posso usar?” Sara dos Santos Louveira, 16, descobriu a pesquisa científica. O efeito coletivo já aparece: a Clarinda tem 13 projetos ativos financiados pela Fundect, com mais de 50 bolsistas.
No Pantanal, a água encontra o peixe
Duzentos quilômetros a oeste, na Escola Estadual Caetano Pinto, em Miranda, a mesma água ganha contorno regional. O AquaPantanal propõe integrar a condensação a um sistema de aquaponia: peixes alimentam plantas, plantas filtram água, e o ciclo fecha com recurso que seria descartado.
A professora Elissandra Barreto explica: “O nome traz o bioma para dentro do laboratório.” O protótipo está em fase de testes físico-químicos antes da introdução dos peixes — lambari primeiro, depois possivelmente pacu. O professor Flávio Rossi Galhardo de Figueiredo detalha: a água da criação nutre as hortaliças; a condensação repõe o sistema.
Ciência que ensina a comunicar
Matheus Pereira Claro, aluno do 2º ano, precisou dominar ciclos de nitrogênio, populações de microrganismos, volumes e proporções. “Aprendi que ciência exige saber explicar o que descobri”, diz. Valentina Benevides Bento, colega de turma, nunca imaginou que água de ar-condicionado pudesse virar alimento. Enzo Pereira Claro destaca a ponte teoria-prática: “É o que a gente vê todo dia virando experimento.”
A escola, centenária, recebe alunos da zona urbana e rural. Suas vivências alimentam o projeto. A maioria da equipe está no 2º ano justamente para dar continuidade no ano seguinte — criar ciclo, não evento.
O que vem por aí
- 16 de outubro: divulgação dos 10 finalistas nacionais
- 23 de novembro: abertura da votação popular
- 8 de dezembro: anúncio dos vencedores
Júlio Henrique Souza de Oliveira, 16, da equipe de Campo Grande, sente o peso: “Representar Mato Grosso do Sul numa disputa nacional muda a forma como a gente se vê.”
O que observar daqui para frente
Duas escolas, um mesmo recurso ignorado, soluções distintas nascidas do território. Se a EcoHorta avança para automação doméstica via app, o AquaPantanal mira a segurança alimentar no bioma. Ambos provam que ciência de base escolar resolve problema real — e forma cidadãos que passam a enxergar desperdício como oportunidade. Acompanhe as mentorias técnicas nas próximas semanas: o refinamento dos protótipos dirá se a água do ar-condicionado vira política pública ou fica no laboratório.
