Donald Trump assumiu com um controle institucional raro: maiorias nas duas casas do Congresso, Suprema Corte alinhada e vitória no voto popular. Dois anos depois, o cenário inverteu-se por completo.
As eleições de meio de mandato varreram a base parlamentar do presidente. O que restou foi um poder de veto robusto, mas uma capacidade legislativa quase nula. Para o empresariado e investidores, a mensagem é clara: a agenda econômica dependerá de negociação, não de decretos.
O tsunami que ninguém previu na dimensão certa
A literatura sobre política americana já apontava: governos unificados duram pouco. Desde 1981, os EUA viveram com governo dividido em 71% do tempo. A regra histórica se confirmou, mas a velocidade e a amplitude surpreenderam.
Três forças combinadas explicam a virada:
- Inflação pressionada por duas guerras simultâneas e pela guerra tarifária;
- Rejeição latina às ações de imigração do ICE em estados decisivos;
- Redesenho de distritos e denúncias de corrupção no entorno presidencial.
O resultado foi uma coalizão improvável: produtores rurais prejudicados por tarifas e combustíveis caros uniram-se a eleitores metropolitanos tradicionalmente progressistas.
Por que o Executivo americano é estruturalmente fraco
Diferente do modelo brasileiro, o presidente dos EUA não apresenta projetos de lei, não tem iniciativa exclusiva de orçamento ou tributos e não pode contingenciar gastos sem aval do Congresso. O Orçamento é impositivo: se não for votado, o governo para — o famoso shutdown.
Essa arquitetura foi desenhada pelos pais fundadores exatamente para impedir concentração de poder. O controle simultâneo das duas casas pelo partido do presidente é a exceção, não a regra.
O “Sr. Veto” e a matemática do Congresso
Restou a Trump a arma do veto total. Para derrubá-lo, são necessários dois terços em cada casa — um patamar atingido em apenas 7% dos vetos na história. No Brasil, a maioria absoluta basta.
Mas o veto é binário: aprova ou rejeita o texto inteiro. Não há veto parcial como no sistema brasileiro. Isso força o presidente a aceitar pacotes completos negociados pelo Legislativo ou arriscar paralisar a máquina pública.
O que muda para contratos, investimentos e regulação
Com a iniciativa legislativa nas mãos do Congresso, três consequências práticas emergem:
- Reformas tributárias e comerciais dependerão de acordos bipartidários, alongando prazos;
- Ordens executivas continuam possíveis, mas com alcance limitado e vulneráveis a questionamentos judiciais;
- Agências reguladoras ganham espaço para definir regras setoriais sem interferência direta da Casa Branca.
O que observar nos próximos 18 meses
A dinâmica de “governo dividido” deve persistir até 2026. Para quem toma decisões de alocação de capital ou planejamento estratégico nos EUA, o indicador-chave não é a retórica presidencial, mas a capacidade de articulação do Speaker da Câmara e do líder da maioria no Senado. São eles que ditarão o ritmo — e o conteúdo — da legislação econômica.
