Justiça

O segredo do pen drive que pode pagar R$ 3 bi a 77 mil vítimas do Faraó dos Bitcoins…

Pen drive criptografado em cofre da Polícia Federal representando fortuna de R$ 3 bi do Faraó dos Bitcoins
Imagem ilustra o pen drive com chaves privadas que pode quitar dívida bilionária de Glaidson Acácio dos Santos.

Glaidson Acácio dos Santos, o “Faraó dos Bitcoins”, afirma que uma carteira fria guardada em cofre da Polícia Federal contém chaves privadas suficientes para quitar a dívida de quase R$ 3 bilhões com mais de 77 mil credores. A senha, no entanto, está apenas na cabeça dele — e ele diz não lembrar “de cabeça” no momento.

Cinco anos após a Operação Kryptos, o destino da fortuna movimentada pela GAS Consultoria segue como o maior enigma do caso. O Ministério Público Federal apurou R$ 38,2 bilhões em operações sem qualquer regulação. Agora, a Justiça Federal analisa as alegações finais de um processo que pode condenar Glaidson, a esposa Mirelis Diaz Zerpa e outros 15 réus a penas superiores a 37 anos de prisão.

Como funcionava a máquina de captar bilhões

A promessa era simples e agressiva: 10% de rendimento ao mês. Em depoimento, Glaidson explicou a mecânica: ao concentrar recursos de milhares de contratos individuais — “de grão em grão, a galinha enche o papo” — ele se tornava uma “baleia” do mercado cripto. Com volume suficiente para manipular preços, combinava com outras baleias apostas alavancadas na queda de ativos específicos.

“No mercado, uns riem, outros vendem lenços”, disse ele à juíza. O MPF contrapôs: “Não tem uma ilegalidade nisso?”. Resposta: “Não, não é ilegalidade, né? É falta de ética.”

O especialista Flávio D’Urso contextualiza: entre 2008 e 2022, o mercado de criptoativos operou no Brasil sem marco regulatório específico. A GAS captava em espécie, via helicóptero até São Paulo, e convertia em carteiras digitais da empresa — tudo fora do radar do Banco Central e da CVM.

O papel de Mirelis e a movimentação suspeita de R$ 1 bi

Presa em Chicago (2024) e deportada, Mirelis nega participação na gestão: “Meu trabalho sempre foi estudar criptomoedas, multiplicar o dinheiro e fazer trading”. Afirma que Glaidson controlava a relação com clientes e a administração.

O MPF aponta, porém, acesso a computador em Kissimmee (Flórida) dias após a prisão do marido, quando contas estavam bloqueadas. Resultado: 4,5 mil bitcoins saíram das carteiras da GAS — equivalentes a mais de R$ 1,06 bilhão na cotação de agosto de 2021. Questionada, Mirelis disse ter resgatado “com meu dinheiro”, não da empresa.

A defesa dela sustenta que a venda de ativos visou honrar pagamentos a clientes, orientada por advogados da GAS, e nega apropriação do bilhão.

A cold wallet: tesouro ou armadilha?

O dispositivo físico — tamanho de um pen drive — guarda as chaves privadas (senhas criptográficas) que dão acesso aos ativos. Desconectado da internet, é a forma mais segura de custodiar criptomoedas. Mas tem um ponto de falha crítico: a senha mestra.

  • Glaidson confirma: “Existe quantia vultosa”.
  • Juíza: “Dá pra pagar todos?”
  • Ele: “Dá. Dá. Dá.”
  • Minutos depois: “A senha, agora de cabeça, eu não sei. Mas tá lá. Tá tudo lá.”

Para D’Urso, o risco é real: “Caso ocorra qualquer coisa com ele e ele não deixe essas senhas com alguém, essas criptomoedas podem ser perdidas para sempre.”

O tamanho do prejuízo humano

A lista de credores supera a população de 90% dos municípios brasileiros. Uma vítima, que prefere anonimato, relatou ter investido mais de R$ 500 mil — venda de carro, moto, empréstimos consignados e pessoais. “Vi amigos recebendo em dia, acreditei.”

Glaidson mantém a inocência: “Essas acusações são inverdades. Foi algo precipitado a paralisação da minha empresa”. A defesa alega que os pagamentos pararam por ordem judicial e contesta a lista de credores. Nos processos por homicídio e tentativa (concorrentes da GAS), nega provas e confia no júri popular.

O que observar daqui para frente

Três frentes definem o desfecho prático para credores e mercado:

  • Sentença da ação penal federal: condenação ou absolvição de Glaidson, Mirelis e demais réus — base para execução de bens e reparação.
  • Acesso à cold wallet: se a senha não for recuperada ou compartilhada voluntariamente, a recuperação técnica é praticamente impossível com a criptografia atual.
  • Processo de falência da GAS: a lista de 77 mil credores segue contestada; a habilitação de créditos e rateio de eventuais ativos recuperados dependem de homologação judicial.

Enquanto isso, Glaidson cumpre pena na penitenciária federal de Catanduvas (PR) e Mirelis está presa preventivamente no Rio. O pen drive segue no cofre da PF. O relógio corre — e, no mundo cripto, senha perdida costuma significar fortuna queimada para sempre.