Meio Ambiente

Calor histórico no Nordeste derrete mel nas colmeias e assusta produtores

Colmeias sob sol escaldante no Nordeste com mel derretido escorrendo das caixas
Calor recorde no Nordeste derrete mel dentro das colmeias e causa prejuízos a apicultores

O Nordeste registra as temperaturas mais altas do século XXI e o fenômeno já provoca efeitos diretos na produção agropecuária: mel está derretendo dentro das colmeias. Apicultores relatam perdas inéditas em décadas de atividade.

Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmam que 2024 superou todos os recordes de calor na região desde 2000. A pergunta que fica: até onde isso pode comprometer a safra e a renda de milhares de famílias?

O que os termômetros mostram

Estações meteorológicas espalhadas pelo sertão e agreste marcaram picos acima de 40°C em municípios que historicamente não passavam dos 36°C. Em Petrolina (PE), Juazeiro (BA) e Mossoró (RN), a média máxima de outubro a dezembro ficou 3,2°C acima da normal climatológica.

O Inmet emitiu alertas vermelhos — nível de perigo extremo — para 1.147 cidades nordestinas apenas no último trimestre. O fenômeno combina La Niña enfraquecida, aquecimento do Atlântico Tropical e ausência de corredores de umidade.

Impacto direto nas colmeias

O mel começa a liquefazer e escorrer dos favos a partir de 35°C dentro da caixa. Com temperaturas externas beirando 42°C, o interior das colmeias ultrapassa o limite crítico. Abelhas abandonam ninhos, rainhas param de postar e a produção cai vertiginosamente.

  • Perda estimada de 30% a 45% na safra de mel em 2024
  • Mortandade de enxames chega a 20% em áreas de caatinga
  • Polinização de culturas como melancia, maracujá e caju comprometida

Apicultores de 52 anos de experiência dizem nunca ter visto nada parecido. A frase se repete em depoimentos colhidos no Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte.

Efeito cascata na economia regional

A apicultura movimenta R$ 1,2 bilhão por ano no Nordeste e sustenta cerca de 150 mil famílias diretamente. A quebra de safra pressiona preços: o quilo do mel a granel subiu 28% entre janeiro e novembro. Indústrias de cosméticos e alimentos já buscam fornecedores no Sul e no exterior.

Mas o dano vai além do mel. A queda na polinização natural ameaça culturas que dependem de abelhas nativas e africanizadas. Estudos da Embrapa indicam redução de até 18% na produtividade de melancia em áreas sem manejo de polinizadores alternativos.

Adaptação possível, mas cara

Técnicos recomendam sombreamento artificial, caixas isotérmicas e suplementação alimentar com xarope de açúcar. O custo médio por apiário pequeno (30 caixas) gira em torno de R$ 4.500 — inviável para 68% dos produtores, que são agricultores familiares.

Linha de crédito do Pronaf prevê até R$ 15 mil para adaptação climática, mas a burocracia e a exigência de assistência técnica atrasam a liberação. Só 12% dos pedidos foram aprovados até outubro.

O que observar daqui pra frente

Modelos climáticos projetam que anos como 2024 deixarão de ser exceção e passarão a ser a norma a partir de 2030. O zoneamento apícola da região precisará ser revisto: áreas hoje consideradas ideais podem se tornar inviáveis em menos de uma década.

Para o empresário ou investidor do setor, três sinais merecem monitoramento contínuo: evolução do preço do mel no mercado atacadista, taxa de ocupação de caixas nas regiões de transição (agreste úmido) e editais de fomento à apicultura resiliente nos estados. Quem antecipar a migração de apiários para microclimas mais amenos — serras, brejos de altitude, faixas litorâneas — pode garantir fornecimento e margem enquanto a concorrência ainda reage ao prejuízo.