Economia

Aluguéis disparam 200% em El Tigre: o boom que antecede o petróleo

Vista aérea de El Tigre, Venezuela, com jatos particulares no aeroporto local durante boom imobiliário pré-petróleo
Jatos particulares pousam em El Tigre enquanto aluguéis triplicam na expectativa de produção de petróleo que ainda não começou.

Uma cidade no interior da Venezuela vê aluguéis comerciais e residenciais triplicarem em meses, impulsionada por uma corrida ao petróleo que ainda não produziu um barril sequer. Jatos particulares pousam onde antes havia silêncio, e empresas estrangeiras assinam contratos de longo prazo em escritórios que mal saíram do papel. O fenômeno expõe uma aposta bilionária em uma recuperação que ainda enfrenta apagões diários e infraestrutura decadente.

O epicentro silencioso da retomada

El Tigre, a seis horas de Caracas, tornou-se a base logística da Faixa do Orinoco, a maior jazida de petróleo pesado do mundo. Desde o início do ano, a ocupação hoteleira saltou de 35% para 87%, segundo o Eurobuilding Hotels Group. Sobrados mobiliados no subúrbio de San Tomé, antes alugados por US$ 1.500, agora pedem até US$ 4.500 mensais — alta de 200%.

O movimento não se limita a moradia. Praticamente não há vagas em edifícios comerciais modernos, e pátios industriais são locados por um ano, não cinco, sinal de cautela dos investidores. A transportadora Frontier Forwarders, baseada no Texas, reportou mais que o dobro no volume de equipamentos movidos em outubro na comparação com fevereiro.

Mudança de regras atrai capital externo

O gatilho foi a captura de Nicolás Maduro em janeiro por forças dos EUA, o que levou à posse da presidente interina Delcy Rodríguez. O novo governo reformulou a legislação petrolífera, reduzindo impostos, royalties e abrindo espaço para privadas em áreas antes exclusivas da PDVSA. Empresas ganharam até 120 dias para inspecionar campos e apresentar planos de produção.

Grandes players já se posicionaram:

  • Denarius Holding Group (EUA/Turquia): plano de US$ 400 milhões para recuperar e perfurar campos vizinhos.
  • Alvorada Oil & Gas (Brasil): 250 funcionários no país e previsão de investir US$ 70 milhões em 2027.
  • Weatherford International (EUA): ampliou em dez vezes a força de trabalho especializada local.
  • GeoPark (Colômbia): trazendo pessoal recrutado na diáspora venezuelana.

Infraestrutura não acompanha o otimismo

Apesar do frenesi imobiliário, a produção nacional estagna em 1,2 milhão de barris/dia — um terço do pico dos anos 1990. Apagões prolongados desligam bombas d’água, e esgoto a céu aberto ainda é realidade em bairros nobres. A engenheira Yasmina Requena resume: “As empresas alugam pátios por 12 meses; é uma postura de ‘vamos ver no que dá’.”

O comércio local sente o descompasso. Remo Di Marcantonio, dono de ferragem, diz: “Há mais movimento, mas o dinheiro não circula nas ruas como há 20 anos.” Shoppings mantêm lojas vazias onde antes havia bancos e varejo.

O que observar nos próximos trimestres

Rodríguez projeta quase US$ 76 bilhões em investimentos em óleo e gás nos próximos cinco anos e espera salto de produção a partir de dezembro, quando os novos contratos começarem a operar. Contudo, o chefe da câmara petrolífera de Puerto La Cruz, Víctor Morales, prevê resultados concretos apenas em 2028. Enquanto isso, a certificação de mão de obra — operadores de máquinas pesadas, especialistas ambientais, gestores de contratos — virou gargalo imediato: equipamentos chegam mais rápido que gente qualificada para operá-los.

Para o investidor ou empresário que monitora a região, três indicadores dirão se o boom é real ou bolha: a taxa de conclusão dos planos de desenvolvimento apresentados à PDVSA, a estabilidade do fornecimento de energia nas áreas de operação e a velocidade de contratação de talentos técnicos locais versus expatriados. O tigre de El Tigre rugiu no mercado imobiliário; resta saber se rugirá na produção.