O governo Lula inicia o mandato com cinco megaprojetos de infraestrutura parados há décadas e um orçamento que encolhe 4% em 2027. A conta não fecha — e o relógio corre contra prazos ambientais, licenças e a própria viabilidade financeira.
Ferrovia, usina nuclear, rodovia na Amazônia, canal no Tocantins e a transposição do São Francisco somam dezenas de bilhões em recursos federais. Nenhum deles tem entrega garantida.
O mapa dos esqueletos bilionários
A Transnordestina nasceu em 2006, no primeiro mandato petista. A promessa era ligar Eliseu Martins (PI) aos portos de Pecém (CE) e Suape (PE). O trecho até Pecém saiu; os 545 km até Suape viraram promessa de palanque. No Orçamento de 2027, a rubrica reserva R$ 53,4 milhões — valor simbólico diante do que falta.
Em Angra 3, a indecisão custa caro. A usina nuclear começou nos anos 1980, parou, recomeçou em 2007, parou de novo em 2015. A Eletronuclear prometeu operação em novembro de 2026; não entregou. Um estudo do BNDES de 2024 aponta dois caminhos: terminar até março de 2033 por R$ 23,9 bilhões ou abandonar o canteiro gastando entre R$ 21,9 bi e R$ 25,9 bi. A diferença? Quase nenhuma.
A BR-319 (Manaus–Porto Velho) tem 339,4 km contratados em quatro lotes (R$ 1,3 bi) e licença do Ibama para três pontes. O Dnit quer leilão de PPP em dezembro de 2027. Ambientalistas veem vetor de desmatamento; o governo vê integração logística.
No Pedral do Lourenço (rio Tocantins, PA), pedras submersas travam barcaças de grãos e minério. O projeto executivo custa R$ 1,1 bilhão. O derrocamento deve começar em março de 2027 e terminar em dezembro de 2030 — se licenças não empacarem.
A transposição do São Francisco (iniciada em 2007) já leva água pelo Eixo Norte, mas a ampliação da capacidade de bombeamento segue pendente. A previsão oficial é fechar tudo em 2027, com R$ 561 milhões no Orçamento.
O aperto fiscal e a conta que não fecha
A proposta orçamentária para 2027 destina R$ 16,07 bilhões a infraestrutura de transporte (União + estatais), queda real de 4% sobre 2026. A CNT estima que só a manutenção da malha rodoviária federal exige R$ 49,93 bilhões. O previsto para rodovias (R$ 12,46 bi) cobre um quarto da necessidade.
O TCU mapeou 4.215 obras paralisadas em 2026, de 22.414 fiscalizadas — muitas tocadas por estados e municípios com dinheiro federal.
A aposta na iniciativa privada
O Ministério dos Transportes contrapõe: mais de 8.000 km de rodovias já concedidos nos últimos anos; outros 3.000 km previstos para 2027. A conta do governo: economia de ~R$ 2 bilhões/ano em custeio e manutenção, liberando verba para projetos “que o mercado sozinho não viabiliza”.
- BR-319: leilão de PPP em dez/2027 (condicionado a etapas técnicas e ambientais)
- Pedral: pré-mobilização em andamento; derrocamento começa mar/2027
- Transnordestina: contrato de obra pública assinado; lote de 73 km contratado via Infra S.A.
- Angra 3: decisão no CNPE; depende de modelo de financiamento + contrato de comercialização de energia (40 anos)
O que observar nos próximos 18 meses
A definição sobre Angra 3 no CNPE é o gatilho mais sensível — envolve bilhões, segurança energética e passivo ambiental. Em paralelo, o leilão da BR-319 testará apetite privado em ativo de alto risco regulatório. No Pedral, o cronograma agressivo (mar/2027 a dez/2030) pressupõe zero entraves de licenciamento — cenário otimista na Amazônia.
Para o empresário ou investidor, a leitura prática: projetos com modelagem privada definida (concessões rodoviárias) avançam; os dependentes de decisão política e recurso direto do Tesouro seguem no compasso de espera. O Orçamento de 2027, ainda sujeito a alterações no Congresso, será o termômetro real da prioridade do Planalto.
