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Contrato do NewJeans permite clonar vozes das artistas por IA para sempre — e elas tinham 14 anos ao assinar

Integrantes do NewJeans jovens assinando contrato com símbolo de IA clonando vozes eternamente
Contrato do NewJeans permite clonagem de voz por IA sem prazo de validade, assinado na adolescência.

Uma cláusula contratual assinada por adolescentes autoriza a gravadora a replicar digitalmente as vozes das integrantes do NewJeans sem prazo de validade. A revelação, feita pelo New York Times, reacende o debate sobre até onde vai o poder de uma assinatura quando o objeto do acordo é a própria identidade sonora de um artista.

O caso expõe uma brecha que a legislação sul-coreana de 2009 não previu: a voz sintética escapou do teto de sete anos imposto aos contratos de exclusividade. O que parecia ficção científica virou ativo licenciado — e o precedente vale para muito além do K-pop.

O que o contrato permite, na prática

A ADOR, subsidiária da HYBE (dona também do BTS), detém o direito de licenciar “reconstruções digitais” das artistas. Isso inclui:

  • Vozes recriadas por inteligência artificial para novas gravações;
  • Performances em idiomas que as cantoras nunca estudaram;
  • Uso em projetos futuros ainda inexistentes no momento da assinatura.

As integrantes tinham entre 14 e 17 anos quando firmaram o termo. O contrato expira apenas em 2029, mas a licença de voz sintética não tem data para acabar.

O laboratório por trás da tecnologia

A HYBE investiu cerca de US$ 32 milhões na aquisição da Supertone, startup especializada em síntese vocal. A estreia comercial veio em 2023 com MIDNATT, alter ego do cantor Lee Hyun: a faixa “Masquerade” foi lançada simultaneamente em seis idiomas, com pronúncia ajustada por IA a partir de falantes nativos. Um trecho usou voz feminina sintetizada a partir do próprio timbre do artista.

Na época, o CEO da Supertone resumiu a proposta: bastaria uma amostra vocal para recriar qualquer canção com aquele timbre. O projeto MIDNATT foi apresentado como extensão consentida de um veterano. A cláusula do NewJeans transforma essa capacidade em ativo perpétuo, independendo da presença física da artista.

Quando o clone nasce sem pedir licença

O caminho inverso já viralizou. Em 2023, um canal no YouTube publicou “Hype Boy”, do NewJeans, na voz de Bruno Mars. O cantor nunca gravou a música — era um cover gerado por IA treinada com amostras públicas dele. O vídeo ultrapassou um milhão de visualizações em dias.

Se a gravadora pode licenciar a voz das cantoras indefinidamente, a barreira entre uso autorizado e apropriação por terceiros se dissolve. O céu do uso não autorizado deixa de ter limite.

Ásia: o teste de estresse global

O pop asiático funciona como laboratório avançado dessa transformação. Três fatores explicam a dianteira:

  • Indústria do K-pop altamente planejada e verticalizada;
  • Público habituado a personagens virtuais e narrativas transmídia;
  • Estrutura contratual que concentra poder nas gravadoras.

A SM Entertainment lançou o aespa em 2020 com contrapartes digitais (“ae”) habitando um universo paralelo. Grupos 100% virtuais como o PLAVE — pessoas reais por trás de avatares animados — vencem programas musicais e esgotam ingressos. Na China, versões sintéticas de Coco Lee (falecida em 2023) e Qiao Renliang (morto em 2016) viralizaram contra a vontade das famílias. No Japão, a “AI Misora Hibari” cantou inédita no tradicional Kōhaku em 2019, três décadas após a morte da estrela — emocionou parte do público e revoltou outra.

A diferença crucial do caso NewJeans: a réplica digital está prevista em contrato, com a artista viva e em atividade. Isso desarma respostas regulatórias desenhadas para clonadores não autorizados.

O que a lei diz — e onde falha

A Coreia protege o valor comercial de nome, imagem e voz desde 2022 via lei de concorrência desleal. Nos EUA, o NO FAKES Act (aprovado por unanimidade na Comissão de Justiça do Senado em junho) limita licenças de réplica digital a dez anos — ou cinco para menores, extintas aos 18. O Tennessee tem lei própria no mesmo sentido.

No Brasil, o artigo 11 do Código Civil declara direitos da personalidade intransmissíveis e irrenunciáveis. Mas a jurisprudência flexibiliza: o Enunciado 4 da I Jornada de Direito Civil admite limitação voluntária desde que não seja permanente nem geral. O Enunciado 139 da III Jornada complementa: limites sem previsão legal são válidos se não houver abuso de direito nem ofensa à boa-fé.

Uma licença por prazo indefinido para reconstruir voz e imagem de alguém parece falhar nos dois testes. Ela é permanente — sobrevive ao contrato original. E é geral — autoriza performances inexistentes em contextos imprevisíveis na assinatura.

O precedente Elis Regina e o que vem agora

O debate brasileiro ganhou tração em 2023 com o comercial da Volkswagen que recriou Elis Regina dirigindo ao lado da filha, Maria Rita. O caso foi ao Conar virou referência obrigatória. Hoje tramita no Senado projeto de reforma do Código Civil que exige consentimento prévio, expresso e informado para criação de imagens por IA — de vivos ou falecidos —, impõe respeito à dignidade e ao legado, e obriga sinalização de conteúdo gerado artificialmente. Para uso comercial de falecidos, condiciona a autorização a cônjuges, herdeiros ou disposição de última vontade.

O que observar daqui para frente

O contrato do NewJeans expõe uma negociação assimétrica: adolescentes cheias de sonhos, sem poder de barganha, assinando termos que cobrem performances que nem elas imaginam. “Ditto” — um dos maiores sucessos do grupo — significa “o mesmo”. A IA faz exatamente isso: repete o timbre, sem a pessoa.

A pergunta que fica não é técnica, mas jurídica e ética: uma manifestação de vontade aos 14 anos pode cobrir, de uma só vez, todas as performances futuras de uma voz que a própria pessoa ainda não sabe como vai soar? Enquanto o contrato vigora até 2029, a licença de clonagem não tem prazo. O próximo hit do entretenimento não será uma música — será a disputa entre a pessoa real e as empresas que exploram o seu clone.