Tecnologia

O segredo da sucessão rural: netos voltam da faculdade e transformam o agro familiar

Jovens engenheiros agrônomos usando tecnologia em propriedade rural familiar no noroeste paulista
Netos formados em agronomia modernizam a fazenda da família com drones e dados.

Engenheiros agrônomos na casa dos 20 anos estão assumindo propriedades no noroeste paulista e trocando métodos tradicionais por tecnologia de ponta. O movimento inverte a lógica do êxodo rural e coloca a sucessão familiar no centro da modernização do setor. O que explica essa guinada?

Em Guararapes e Araçatuba, dois casos mostram como a formação universitária aliada ao conhecimento de berço está redesenhando a produção. A transição não é romântica: envolve números, gestão de risco e decisões técnicas que definem a viabilidade do negócio.

Da alface no chão à hidroponia: a virada de Jhonata Yaji

Formado pela UEM em 2019, Jhonata Yaji poderia ter seguido a rota padrão do mercado de trabalho. Em vez disso, voltou à propriedade da família e identificou o gargalo: o cultivo convencional de alface no solo perdia safras inteiras para chuvas extremas e ondas de calor.

A solução veio da sala de aula. Ele implantou 150 bancadas hidropônicas, substituindo o solo por canaletas com solução nutritiva controlada. O sistema permite produzir alface, salsa, cebolinha e hortelã com previsibilidade de colheita e menor dependência climática.

Para estruturar a gestão, buscou o programa ALI Rural do Sebrae. Durante 12 meses, um agente de inovação acompanhou a rotina da propriedade, alinhando a visão do jovem produtor com a experiência dos mais velhos.

  • Resultado prático: diversificação de culturas e redução de perdas por intempéries
  • Gestão: 12 meses de assessoria técnica contínua via Sebrae/ALI Rural
  • Escala: 150 bancadas hidropônicas em operação

Terceira geração no comando do sorgo em Araçatuba

A 50 quilômetros dali, a história repete outro roteiro. Bruno Sobrinho, 23 anos, assumiu a colheita da propriedade que o avô Antônio João iniciou há mais de seis décadas. O carro-chefe é o sorgo — grãos para ração, silagem e sementes negociadas com cerealistas.

Bruno não chegou impondo mudanças. Sentou com o pai Amauri e o avô para discutir cada decisão. “A gente senta, discute, troca informação sobre o que fazer e o que não fazer, mas sempre juntos”, resume o pai. A transição ocorre sem ruptura: o conhecimento empírico de 60 anos de lavoura dialoga com a agronomia de precisão recém-formada.

Essa convivência entre gerações resolve um dos maiores dilemas do agro brasileiro: como passar o bastão sem derrubar a produtividade.

O que os números não mostram — mas o campo sente

Não há estatística oficial que meça “sucessão bem-sucedida”. O que se observa, porém, é um padrão: jovens com diploma técnico retornam quando enxergam viabilidade econômica, não apenas sentimento. A hidroponia de Jhonata e o sorgo de Bruno compartilham a mesma equação — tecnologia aplicada a um ativo que a família já domina: a terra e o mercado local.

O elo comum é a gestão profissionalizada. Seja via programa do Sebrae, seja na conversa diária à mesa de almoço, a profissionalização aparece como condição sine qua non para a continuidade.

O que observar daqui para frente

Três sinais indicam se o movimento vai se consolidar ou ficar restrito a casos isolados: a disponibilidade de crédito para modernização em propriedades médias, a capilaridade de programas de extensão como o ALI Rural além das regiões-piloto e a capacidade das universidades de formar agrônomos com visão de negócio, não apenas de laboratório.

Para o empresário ou investidor que acompanha o setor, a lição está posta: a sucessão rural bem-sucedida não é herança — é estratégia. E estratégia se mede em safra, fluxo de caixa e decisão técnica compartilhada.