Economia

O segredo do boom imobiliário em El Tigre: petróleo volta a mexer com a Venezuela

Vista aérea de El Tigre com construção imobiliária e infraestrutura petrolífera ao fundo
El Tigre vive boom imobiliário impulsionado pela retomada da atividade petrolífera na Venezuela

El Tigre, cidade a seis horas de Caracas, vive um fenômeno que contradiz a narrativa oficial: jatos particulares lotam o aeroporto local, aluguéis comerciais dispararam 33% no ano e sobrados mobiliados saltaram de US$ 1.500 para US$ 4.500 mensais. Tudo isso antes de um único barril novo ser extraído.

A transportadora Frontier Forwarders, baseada no Texas, dobrou o volume de equipamentos e triplicou a carteira de clientes entre fevereiro e outubro. O movimento antecipa uma aposta bilionária que ainda carrega riscos estruturais.

O gatilho regulatório que mudou o jogo

Em janeiro, a captura de Nicolás Maduro abriu caminho para a presidente interina Delcy Rodríguez. O novo governo reformulou a legislação petrolífera ainda no primeiro trimestre: reduziu impostos, cortou royalties e abriu espaço para operadoras privadas em áreas antes exclusivas da PDVSA.

Algumas empresas anteciparam a virada. A turca Çan2 Termik adquiriu participação na Denarius Pumping Services em 2024. Em setembro, a Denarius Holding Group, da Flórida, assinou contrato de US$ 400 milhões com a estatal para recuperar e perfurar campos na Faixa do Orinoco.

“Vimos o enorme crescimento que pode resultar dos investimentos e das regulamentações adequadas e achamos que poderíamos reproduzir isso na Venezuela”, disse Zehra Zeynep Dereli, vice-presidente do Denarius Holding Group.

Quem já está no chão e os números por trás

Três grandes players já operam a partir de El Tigre:

  • Weatherford International (EUA): ampliou em dez vezes a força de trabalho especializada no país.
  • Alvorada Oil & Gas (Brasil): 250 funcionários, fábrica local de equipamentos e US$ 70 milhões previstos para 2027.
  • GeoPark (Colômbia): recrutando venezuelanos da diáspora para compor equipes técnicas.

A ocupação hoteleira espelha o aquecimento: o Eurobuilding El Tigre saltou de 35% para 87% em um ano. Em Puerto La Cruz, vizinha estratégica, imóveis que custavam US$ 120 mil agora são ofertados a US$ 380 mil.

Produção real ainda patina; metas são para 2028

Apesar do frenesi, a produção nacional estaciona em 1,2 milhão de barris/dia — um terço do pico de 3 milhões nos anos 1990. O governo projeta US$ 76 bilhões em investimentos nos próximos cinco anos, mas os contratos recentes dão até 120 dias apenas para inspeção e planos de produção.

Engenheiros de campo relatam cautela: empresas alugam pátios industriais por 12 meses, não por cinco anos. “É a postura de quem diz: vamos ver o que acontece”, resume Yasmina Requena, avaliadora de equipamentos.

O abismo entre o boom corporativo e a rua

Apagões prolongados desligam estações de bombeamento de água, embora a cidade assente sobre grande aquífero. Esgoto a céu aberto corta bairros nobres. Shoppings mantêm lojas vazias onde antes havia bancos e varejo.

“Não vejo mudança alguma. O dinheiro não está circulando pelas ruas. Há um pouco mais de movimento, sem dúvida, mas nem de longe tanto quanto há 20 anos”, disse Remo Di Marcantonio, dono de ferragem local.

Cursos de certificação para operadores de máquinas pesadas, especialistas em contratos e meio ambiente estão lotados — mão de obra qualificada virou gargalo mais apertado que capital.

O que observar daqui para frente

Os primeiros resultados concretos de produção devem aparecer apenas no fim de 2025, com escala relevante projetada para 2028. Até lá, três variáveis ditam o ritmo: estabilidade do marco regulatório, solução da crise energética que paralisa operações e capacidade de formar técnicos no volume que a expansão exige. O tigre está acordando — mas ainda não deu o bote.