Donald Trump assinou nesta sexta-feira (4) três decretos que mexem direto na engrenagem da pecuária americana: flexibilizam a defesa contra lobos, abrem caminho para o pecuarista processar a própria carne e dão o primeiro passo para voltar a exigir a origem no rótulo. O objetivo declarado é derrubar o preço da carne bovina, que bateu recorde histórico este ano.
Mas a canetada expõe uma contradição: ao mesmo tempo em que tenta agradar o produtor, o governo ampliou em 300 mil toneladas a cota de importação de carne magra com tarifa reduzida. O pecuarista americano vê a medida como ameaça à recomposição do rebanho, que encolheu ao menor nível em 75 anos.
O que muda na prática para quem cria gado
O primeiro decreto ataca uma dor antiga: a predação de lobos-cinzentos sobre bezerros. Embora a espécie siga protegida pela Lei de Espécies Ameaçada na maior parte do território, a nova ordem dá mais autonomia aos estados e produtores para manejar o problema. Na prática, reduz a burocracia para autorizar abates seletivos quando houver comprovação de ataque ao rebanho.
O segundo decreto mira a concentração do abate. Hoje, quatro grandes frigoríficos controlam mais de 80% do processamento nos EUA. A medida facilita a instalação e a inspeção de unidades menores, inclusive dentro das próprias fazendas, permitindo que o pecuarista venda direto ao consumidor ou a mercados regionais sem depender do oligopólio.
O terceiro trata da rotulagem de origem. O Congresso derrubou a obrigatoriedade em 2015, após derrotas na OMC contra Canadá e México. O decreto de Trump não restabelece a regra — isso exige lei —, mas instrui o USDA a criar um selo voluntário robusto, com critérios federais claros, para quem quiser estampar “Produto dos EUA”.
Números que explicam a pressa da Casa Branca
- Rebanho bovino: menor desde 1951 — queda de 2,5% só em 2024.
- Preço varejo: alta acumulada de 28% nos últimos três anos.
- Cota extra de importação: 300 mil toneladas de carne magra com tarifa zero até dezembro.
- Participação dos “Big Four” no abate: 85% do volume nacional.
Secas prolongadas no Texas, Oklahoma e Kansas, somadas a incêndios florestais recordes em 2023 e 2024, destruíram pastagens e forçaram o abate antecipado de matrizes. O ciclo biológico do boi — 2 a 3 anos do nascimento ao abate — impede resposta rápida da oferta.
Por que os pecuaristas estão divididos
A National Cattlemen’s Beef Association (NCBA) aplaudiu a flexibilização contra lobos e o apoio a frigoríficos pequenos. Mas classificou a ampliação das importações como “tiro no pé”: carne estrangeira mais barata pressiona o preço do boi gordo nos leilões locais, justamente quando o produtor tenta segurar fêmeas para reconstruir o plantel.
Do lado dos consumidores, a expectativa é de alívio no curto prazo. Analistas do USDA projetam que a cota extra pode reduzir o preço do corte no varejo entre 3% e 5% até o fim do ano, desde que a logística de distribuição não trave.
O que observar nas próximas semanas
Três frentes decidirão se a estratégia funciona. Primeiro, a regra do selo “Produto dos EUA”: o USDA tem 90 dias para publicar a proposta de critérios — se forem frouxos, o selo vira marketing vazio. Segundo, a implementação dos abates descentralizados: inspeção federal em plantas micro exige inspetores que hoje não existem em número suficiente. Terceiro, a reação do Congresso: qualquer volta da rotulagem obrigatória precisa de lei, e o lobby da indústria processadora (que importa matéria-prima) já se mobiliza contra.
Enquanto isso, o pecuarista médio faz a conta: vale a pena investir em estrutura própria de abate e selo de origem, ou continua refém do preço pago pelos quatro gigantes? A resposta ditará se os decretos viram mudança estrutural ou apenas alívio temporário de manchete.
