A Polícia Civil indiciou o ex-presidente da Câmara de São Paulo, Milton Leite, por organização criminosa e pediu sua prisão preventiva. O relatório final revela que 12 das 22 empresas do sistema municipal estariam sob influência do PCC. A investigação muda completamente o que se sabia sobre o transporte público da maior cidade da América Latina.
Leite está detido no CDP II de Guarulhos após ser transferido de Mogi das Cruzes, onde cinco agentes foram afastados por suspeita de conceder regalias. Outros 15 alvos da Operação Vectura Corrupta também foram indiciados. Entre eles, o ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, e o ex-candidato a prefeito de Praia Grande, Danilo Marco Morgado Silva.
O esquema que colocou a facção no volante
Segundo o inquérito, a infiltração ocorria por meio de empresas com donos formais — os chamados laranjas — que mascaravam o controle real de integrantes do PCC. A estrutura permitia à organização criminosa gerir linhas, garagens e contratos milionários com o poder público.
Um dos pilares do esquema seria a Transwolff. A polícia aponta Milton Leite como verdadeiro proprietário da companhia, embora os diretores Cícero de Oliveira e Luiz Carlos Efigênio Pacheco (conhecido como Pandora) figurem como representantes legais. Mensagens interceptadas mostrariam o ex-vereador cobrando valores, acompanhando projetos estratégicos — como a frota elétrica e o Projeto Aquático — e convocando reuniões em seu escritório.
Dinheiro, combustível e lavagem de ativos
A investigação identificou a aquisição da distribuidora FANAL por R$ 40 milhões. A empresa fornecia combustível às operadoras ligadas ao grupo, criando um circuito que, segundo a polícia, servia também para lavar dinheiro do tráfico e de outros crimes.
Outro braço é a “Sintonia dos Gravatas”: advogados suspeitos de usar contas de escritórios para circular recursos e facilitar articulações políticas da facção. Não atuariam apenas na defesa jurídica, mas como operadores financeiros e lobistas do esquema.
- 12 de 22 empresas sob influência direta ou indireta do PCC
- 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão na Operação Vectura Corrupta
- R$ 40 milhões na compra da distribuidora FANAL
- 7 cidades alvo da operação: SP, Santana de Parnaíba, São Bernardo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão
O fio que puxou a meada
Tudo começou com a apreensão de 40 kg de drogas. O rastro do entorpecente levou aos financiadores, que por sua vez apontaram para as empresas de ônibus e, dali, para a articulação política. A polícia mapeou conversas entre integrantes da facção, advogados e dirigentes da SPTrans tratando de gestão de garagens e linhas — decisões que deveriam ser técnicas, não criminosas.
Em depoimento, Milton Leite negou participação societária em empresas de transporte e disse não conhecer os integrantes do PCC citados. Afirmou que seus contatos com empresários e a SPTrans ocorreram apenas no exercício do mandato. A defesa não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.
O que observar daqui para frente
O Ministério Público deve oferecer denúncia nas próximas semanas. A prisão preventiva de Leite depende de decisão judicial — o relatório cita destruição de provas, alto poder econômico e influência política como justificativas. Enquanto isso, a SPTrans e a prefeitura precisam demonstrar como evitarão que contratos vigentes sigam beneficiando a estrutura identificada. Para quem acompanha licitações, concessões ou investimentos em mobilidade urbana na capital, o desdobramento desse caso ditará as regras do jogo nos próximos anos.
