Os Estados Unidos elevaram o tom com a China exigindo o cumprimento imediato dos compromissos de Busan, especialmente no fornecimento de terras raras. A cobrança direta do Tesouro americano sinaliza que a paciência de Washington chegou ao limite.
Em ligação na sexta-feira (6), Scott Bessent e Jamieson Greer deixaram claro a He Lifeng: sem resultados concretos, a continuidade dos avanços comerciais está em risco.
O que está por trás do ultimato americano
A trégua firmada em outubro de 2025 na cidade portuária sul-coreana de Busan expira em 10 de janeiro. Originalmente prevista para terminar antes, ganhou extensão de dois meses após negociadores não resolverem as divergências centrais — prorrogando o prazo até janeiro de 2027.
Segundo autoridades americanas ouvidas pelo Financial Times, a China cumpria apenas dois terços da promessa de fornecimento de terras raras em setembro. Desde então, Pequim não aumentou as exportações, apesar das cobranças diretas de Bessent a He em Nova York.
Terras raras: o gargalo estratégico que preocupa o Pentágono
O foco não é aleatório. Terras raras como o ítrio são insubstituíveis em motores a jato, mísseis e sistemas de defesa. Restrições chinesas à exportação desse elemento ao Japão já colocaram fabricantes nipônicos em alerta: estoques atingiram níveis “perigosamente baixos”, segundo relatos do setor.
Como o Japão produz componentes que alimentam a cadeia industrial americana, o problema chega direto à base produtiva dos EUA.
- Ítrio: essencial para ligas de alta temperatura e fosfóres
- Néodímio e disprosio: base de ímãs permanentes em turbinas e veículos elétricos
- Cério e lantânio: usados em catalisadores de refino e vidros ópticos
O calendário diplomático que define o próximo capítulo
Duas datas concentram as atenções. A cúpula da APEC em Shenzhen, daqui a duas semanas, reunirá Trump e Xi — embora a pauta comercial deva ficar em segundo plano. O G20 em Miami, em dezembro, é onde a negociação deve ganhar peso real.
Entre os dois encontros, Bessent e Greer devem se encontrar pessoalmente com seus contrapartes chineses. É a janela prática para transformar cobranças em entregas.
O que a China responde — e o que não diz
Pequim rejeita as acusações de descumprimento. A embaixada em Washington prometeu declaração “no momento oportuno” e reforçou o discurso de “benefício mútuo” e “desenvolvimento estável” das relações.
Do lado americano, a leitura é outra. Para Craig Singleton, da Fundação para a Defesa das Democracias, a linguagem do Tesouro foi “diplomaticamente incisiva” — código para: não haverá novas concessões sem execução do já acordado.
Soja sim, terras raras não: a seletividade do cumprimento
Um detalhe revela a estratégia chinesa. Autoridades americanas confirmam: as compras de soja estão sendo honradas. Já outros produtos agrícolas e, sobretudo, minerais críticos, ficam aquém do prometido.
Essa seletividade não é acidental. A soja atende demanda interna chinesa e tem fornecedores alternativos (Brasil, Argentina). Terras raras, não — a China controla cerca de 60% da produção global e 85% do processamento.
O que observar nas próximas semanas
Três sinais dirão se a trégua sobrevive ou colapsa: (1) se Pequim anuncia aumento efetivo de cotas de exportação de terras raras antes da APEC; (2) se as restrições de ítrio ao Japão são flexibilizadas; (3) se a reunião bilateral entre equipes técnicas entre APEC e G20 produz cronograma vinculante.
Sem movimento nesses pontos, a prorrogação até 2027 vira letra morta — e a guerra comercial reabre com novo capítulo tarifário.
