Economia

Tarifa zero nos fins de semana: governo prevê R$ 12 bi, mas conta pode não fechar

Ônibus urbano lotado em dia de semana com passageiros diversos, representando transporte público gratuito nos fins de semana
Governo prevê R$ 12 bi para tarifa zero nos fins de semana, mas especialistas alertam para custos maiores

O governo federal reservou R$ 12 bilhões para bancar a gratuidade no transporte coletivo urbano aos sábados, domingos e feriados. A cifra vem de uma fatia das emendas parlamentares obrigatórias, mas especialistas e o setor de transportes alertam: o valor real pode ser bem maior.

A diferença entre as estimativas não é detalhe contábil. Define se a medida sai do papel com qualidade ou se vira promessa vazia para o usuário.

De onde vem o dinheiro e como a conta foi feita

A PEC enviada ao Congresso em 21 de outubro destina 26,8% das emendas de execução obrigatória — projetadas em R$ 44,8 bilhões para 2027 — ao custeio da tarifa zero nos fins de semana. O Ministério das Cidades, em estudo com o Ipea, calculou o custo operacional em cerca de 100 cidades amostrais.

O raciocínio da pasta: o sistema todo custa perto de R$ 70 bilhões por ano. Como a quilometragem cai nos fins de semana, R$ 12 bilhões cobririam a gratuidade com folga. O estudo completo deve ser publicado em novembro.

Por que o setor discorda do número oficial

A NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) projeta R$ 17 bilhões só para ônibus. Incluindo metrôs e trens, a conta sobe para R$ 20,8 bilhões. Três fatores explicam a distância:

  • Demanda real: domingos operam a ~45% da carga de dia útil; sábados, a ~70%.
  • Efeito induzido: cidades que zeraram a tarifa viram a demanda crescer ~20%, exigindo mais frota.
  • Falta de base nacional: não existe cadastro unificado dos sistemas; o ministério está criando um agora.

Marcos Bicalho, diretor da NTU, resume: “Para quem não tem nada, R$ 12 bi já é um primeiro passo”. Mas admite: se o repasse federal não bastar, prefeituras terão de cortar oferta ou补ir com subsídio próprio.

O que diz o mercado financeiro

Tiago Sbardelotto, economista da XP, estima R$ 16 bilhões para cobrir todos os modais nos fins de semana. “Há risco relevante de o Tesouro ter que aportar mais”, afirma. Ele aponta ainda o risco de custos (combustível, mão de obra, manutenção) subirem acima da inflação, corroendo o valor fixado na PEC ao longo do tempo.

João Pedro Leme, da Tendências Consultoria, vê o valor do governo como suficiente, mas destaca outro obstáculo: a aprovação no Congresso. Vincular cerca de um quarto das emendas parlamentares a uma finalidade única tende a enfrentar resistência de deputados e senadores.

O nó da regulamentação: dinheiro sem regra não resolve

Rafael Pereira, pesquisador do Ipea, alerta: aprovada a PEC, a regulamentação precisará definir contratos, critérios de rateio entre municípios e contrapartidas. Exemplos de exigências possíveis:

  • Proibir redução de frota nos fins de semana.
  • Obrigar revisão de contratos de concessão com metas de qualidade e transparência de custos.
  • Exigir dados de bilhetagem, GPS e frota — já previstos no marco legal do transporte urbano, mas hoje apenas sugeridos, não obrigatórios.

“Pode botar todo o dinheiro do mundo, se não melhorar o serviço nem torná-lo mais inclusivo, é dinheiro que escoa pelo ralo”, diz Pereira.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar se a tarifa zero nos fins de semana vira política pública perene ou experimento frustrado: (1) a tramitação da PEC no Congresso e eventuais alterações no percentual das emendas; (2) a publicação do estudo do Ipea/Ministério das Cidades em novembro, com a metodologia detalhada; (3) a regulamentação posterior, que definirá se o subsídio compra apenas passageiros ou também qualidade de serviço. Para gestores municipais e investidores do setor, o sinal claro é: preparem-se para negociar contratos com mais transparência e metas mensuráveis — o dinheiro federal virá com condicionantes.