O conselho de administração da Raízen deu sinal verde para um aumento de capital que pode injetar até R$ 39,8 bilhões na companhia. A medida é a peça-chave para tirar do papel o plano de recuperação extrajudicial, mas carrega um efeito colateral duro para quem já é acionista: a fatia de cada um pode encolher até 94%.
A decisão, unânime, coloca em prática o aval dado em assembleias no fim de outubro e já conta com homologação judicial. O preço de emissão foi fixado em R$ 0,25 por ação — um desconto de quase 29% frente à média dos últimos 30 pregões.
Quem coloca dinheiro e quem vira sócio na marra
A estrutura da operação desenha dois caminhos distintos para a entrada de recursos e conversão de dívida. De um lado, dinheiro novo; do outro, papel trocando de mão.
- Shell: aporta até R$ 3,5 bilhões em dinheiro vivo. Em troca, leva até 7 bilhões de ações ordinárias e 7 bilhões de preferenciais classe B (uma nova classe sem negociação em Bolsa).
- Aguassanta (holding de Rubens Ometto): tem direito a colocar até R$ 500 milhões, mas o comunicado trata essa participação como “hipotética”. A Cosan não vai exercer preferência nas classe B.
- Credores: não colocam um centavo. Parte dos créditos será convertida em units (1 ação ordinária + 1 preferencial classe A), extinguindo a dívida.
Credores com títulos em dólar ou euro receberão ADRs Nível 1, com o Citibank como depositário, facilitando a saída para quem não quer exposição ao real.
A armadilha das preferenciais classe B
O aumento só valida se a Shell ficar com a maioria absoluta das preferenciais classe B emitidas. Esses papéis carregam direitos especiais no estatuto, blindando o controle da petroleira. Outra trava: é preciso subscrever no mínimo 14 bilhões de ações — o lote da Shell. Se não atingir o piso, a operação cai e quem pagou recebe de volta sem correção monetária.
Para onde vai o dinheiro?
A destinação dos recursos segue uma hierarquia rígida, desenhada para estabilizar a operação antes de atacar o passivo:
- Os primeiros R$ 5 bilhões (ou R$ 4,5 bi se a Aguassanta ficar fora) vão integralmente para capital de giro.
- O que exceder esse valor: 70% para pagamento de dívidas e 30% para reforço de caixa.
A lógica prioriza a liquidez imediata — o calcanhar de aquiles que levou ao pedido de recuperação — antes de reduzir o endividamento bruto.
O calendário que o acionista não pode perder
O período de subscrição abre na segunda-feira (9) e fecha em 8 de dezembro. A partir do dia 9, as ações já passam a ser negociadas ex-direito. Quem exercer o direito integralmente mantém, no mínimo, a participação atual. Quem ficar parado vê a fatia diluída em 57% (cenário mínimo) ou 94% (cenário máximo). Não haverá rateio de sobras.
Mudanças de governança e a “moeda” da redução de capital
O pacote aprovado vai além do balanço. Está prevista a eleição de um novo conselho de administração e a reforma do estatuto social. Além disso, uma redução de capital de até R$ 35 bilhões será paga com a entrega de ações da Raízen Energia — a subsidiária que concentra os ativos de cana, açúcar e etanol.
Na prática, o acionista da Raízen (holding) receberá papéis da operacional. O valor dessa “moeda” dependerá de como o mercado precificar a Energia após a segregação de estruturas.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis ditarão o sucesso da reestruturação: a adesão real dos acionistas minoritários no aumento, a confirmação do aporte da Aguassanta (hoje apenas hipotética) e a formação de preço das ações da Raízen Energia que entrarão na carteira de quem ficar até o fim. A taxa de subscrição dirá se o mercado compra a tese de recuperação ou se a diluição assustou o capital.
