Justiça

Senado silencia há 10 dias: senador vota dos EUA, recebe salário e ninguém explica como

Senado Federal em silêncio sobre senador Flávio Bolsonaro votando remotamente dos EUA há 10 dias
Senado não se manifesta há 10 dias sobre Flávio Bolsonaro votar dos EUA mantendo salário e verbas.

Há dez dias, o Senado Federal mantém um silêncio ensurdecedor sobre a situação funcional do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O parlamentar deixou o país em 27 de outubro, mas segue votando remotamente e, até onde se sabe, recebendo integralmente seus subsídios e verbas de gabinete. A ausência de respostas oficiais cria um vácuo regimental que expõe a fragilidade dos controles internos da Casa.

O impasse não é apenas burocrático: envolve a validade de votações sensíveis, o destino de dinheiro público e a aplicação da lei para quem detém foro privilegiado. A Mesa Diretora, comandada por Davi Alcolumbre, ainda não esclareceu se as regras foram seguidas ou ignoradas.

O que a Mesa Diretora se recusa a responder

Desde a partida do senador, a reportagem tenta obter esclarecimentos sobre cinco pontos nevrálgicos. Nenhum teve retorno até o fechamento desta edição:

  • Licença formal: Houve comunicação prévia de afastamento ou pedido de licença, como exige o Regimento Interno?
  • Registro de faltas: A ausência sem justificativa legal gera faltas automáticas? O Artigo 55 da Constituição prevê perda de mandato ao faltar a terça parte das sessões.
  • Acesso ao SDR: O Sistema de Deliberação Remota foi liberado para o parlamentar? Em 3 de novembro, ele votou a PEC da Segurança Pública.
  • Pagamentos: Haverá bloqueio de salário (R$ 44 mil brutos), verbas indenizatórias e de pessoal durante a permanência no exterior?
  • Conselho de Ética: O descumprimento de ordem judicial (entrega de passaportes) e a saída do país sem aviso ensejam processo disciplinar?

A assessoria do senador também ignorou os questionamentos. Enquanto o Senado cala, a conta continua correndo.

O impacto direto no erário e na legitimidade legislativa

O voto remoto na PEC da Segurança Pública — aprovada em 3 de novembro — trouxe o problema para o centro do plenário. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) apresentou questão de ordem pedindo a anulação do voto e a explicação sobre a autorização de viagem.

Para o advogado Leonardo Nicolau Passos Marinho, autor de ação popular na 6ª Vara Federal do Rio (protocolada em 31 de outubro) que pede a interrupção dos pagamentos, a participação na sessão não sana a irregularidade. “As regras da Casa são claras: para se ausentar, o parlamentar deve pedir licença prévia à Mesa. O que, até onde sabemos, não ocorreu”, afirma. A ação segue tramitando independentemente do voto recente.

O pano de fundo: foro privilegiado e investigações no STF

O contexto jurídico eleva a temperatura. Flávio Bolsonaro é alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF), relatados pelo ministro Alexandre de Moraes:

  • Lavagem de dinheiro e “bets”: Investigação envolvendo o advogado Willer Tomaz.
  • Pagamentos do Banco Master: Apura repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.

A ordem de entrega dos passaportes partiu de Moraes, a pedido da Polícia Federal. O senador alega perseguição política, viajou ao Equador e, de lá, seguiu aos EUA usando passaporte italiano. Como o mandato vai até janeiro de 2027, ele mantém foro privilegiado — o que mantém os processos no STF e a blindagem parcial contra prisões de primeira instância.

O próximo movimento está nas mãos de Alcolumbre

Diante da questão de ordem de Randolfe, o presidente Davi Alcolumbre prometeu analisar o caso “à luz dos regimentos do Senado e do Congresso Nacional”. Não há prazo para a decisão.

Enquanto isso, três frentes pressionam por uma definição:

  • Judicial: A ação popular no Rio pede liminar para cortar os pagamentos.
  • Política: Oposição cobra coerência — não se pode alegar “exílio em ditadura” e legislar para ela simultaneamente.
  • Regimental: A falta de posicionamento oficial cria precedente perigoso: qualquer parlamentar poderá votar de qualquer lugar, sem licença, indefinidamente.

O que observar daqui para frente

Três marcos definirão o desfecho nos próximos dias: a manifestação formal da Mesa Diretora sobre a questão de ordem, a decisão liminar da 6ª Vara Federal do Rio sobre o bloqueio de verbas e a eventual provocação do Conselho de Ética. Para investidores e analistas de risco político, o caso funciona como termômetro da solidez institucional brasileira: a capacidade de o Legislativo se autorregular quando um dos seus desafia o Judiciário. A demora na resposta não é apenas omissão — é um sinal de preço para a previsibilidade das regras do jogo.