Internacional

O segredo que derrubou um presidente em 48 horas: banco, fraude e US$ 850 mi em jogo

Santiago Peña renunciando à presidência do Paraguai em meio a escândalo bancário de US$ 850 milhões
Presidente Peña anuncia renúncia após colapso do banco Ueno e ameaça de impeachment unânime

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou na quinta-feira (5) acuado por um escândalo financeiro que paralisou um dos maiores bancos digitais do país e colocou em risco a poupança de 2,9 milhões de clientes. A decisão veio horas antes de a Câmara dos Deputados votar seu impeachment — com apoio unânime, inclusive da base aliada.

O vice-presidente Pedro Alliana assume o comando, mas carrega a mesma sombra: também é alvo do processo de destituição ligado ao colapso do Ueno Bank.

O gatilho: um banco “sistêmico” que quebrou da noite para o dia

O Ueno Bank não era uma instituição qualquer. Administrava mais de US$ 850 milhões (cerca de R$ 4,7 bilhões) em recursos públicos, incluindo aportes do Instituto de Previdência Social — o equivalente ao INSS paraguaio. Pertence ao Grupo Vázquez, do empresário Federico Miguel Vázquez.

Na madrugada de quarta (4), o Banco Central decretou o fechamento da instituição e iniciou processo de resolução bancária: bloqueio total de ativos e passivos, suspensão imediata de serviços. Caixas eletrônicos e aplicativo pararam. Milhares ficaram sem acesso ao próprio dinheiro.

O índice de solvência do banco despencou para 5,56% — menos da metade do mínimo regulatório de 12%.

O que a investigação encontrou até agora

  • Falhas graves na avaliação de risco de crédito
  • Inconsistências nas demonstrações financeiras usadas para aprovar empréstimos
  • Operações concentradas em empresas ligadas aos acionistas controladores
  • Empréstimos diretos a companhias do próprio grupo proprietário
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      Oito pessoas foram presas. O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo — nomeado por Peña —, renunciou no mesmo dia.

      O fio que ligava o presidente ao banco

      Peña foi investidor da holding controladora do Ueno Bank até março de 2025, dois anos após assumir a presidência. A oposição acusa-o de ter tomado “decisões regulatórias supostamente favoráveis” à instituição e de concentrar recursos previdenciários no banco, configurando conflito de interesses.

      Em pronunciamento no X, o ex-presidente alegou “estabilidade do país, paz social e preservação das instituições democráticas”. Pediu desculpas “se algum dia falhei”.

      O custo para o bolso do correntista

      O Banco Central garante depósitos de até US$ 38 mil (aproximadamente R$ 208 mil) por cliente. Mas há um detalhe crucial: o prazo para devolução é de 15 dias. Até lá, o dinheiro segue bloqueado.

      Filas se formaram nas agências na quarta-feira. À noite, centenas protestaram em Assunção exigindo a devolução imediata e o julgamento do ex-presidente.

      Um padrão que se repete há 25 anos

      Peña é o terceiro presidente paraguaio a não completar o mandato desde o fim da ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989).

      • 1999: Raúl Cubas Grau renuncia antes do impeachment, acusado de envolvimento na morte do vice-presidente Luis María Argaña
      • 2012: Fernando Lugo sofre impeachment relâmpago a meses do fim do mandato
      • 2025: Santiago Peña cai em meio a escândalo bancário

      O Partido Colorado, no poder há quase 70 anos (com exceção do governo Lugo), agora precisa gerir a sucessão sob suspeita generalizada.

      O que isso muda para quem investe no Paraguai

      O país vinha sendo vendido como “nova fronteira” para capital estrangeiro — sobretudo brasileiro — após obter grau de investimento e crescer acima da média regional. O Financial Times alertava, porém, que corrupção e ingerência política no Judiciário e no setor privado seguiam como entraves estruturais.

      O caso Ueno Bank testa justamente essa narrativa. A resposta do sistema de justiça e a capacidade do novo governo de separar regulação de interesses privados ditarão se o risco-país sobe ou se a confiança se recupera.

      O que observar nas próximas semanas

      Três frentes definirão o cenário:

      • Recuperação judicial do Ueno Bank: se houver liquidez para honrar os depósitos garantidos no prazo de 15 dias
      • Processo contra Alliana: se o vice-presidente consegue governar ou cai antes de 2028
      • Fluxo de capital externo: reação de fundos e investidores brasileiros com exposição no país

      Para empresários e investidores com posição no Paraguai, o momento exige monitoramento diário das decisões do novo Banco Central e da postura do Congresso. A estabilidade institucional, antes dada como certa, virou variável de risco.