Justiça

Alcolumbre tira maioridade penal da pauta: o que muda agora e por que investidores devem ficar atentos

Davi Alcolumbre no Senado anuncia retirada da pauta de maioridade penal com Congresso ao fundo
Presidente do Senado Davi Alcolumbre retira proposta de redução da maioridade penal da votação desta quarta-feira.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), retirou da votação desta quarta-feira (4) a proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. A decisão atende a um pedido direto do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e transfere o debate para uma comissão especial na Casa vizinha.

O compromisso firmado entre as duas Casas prevê que o texto seja votado pelos deputados ainda em novembro. Mas o caminho até lá envolve três propostas distintas, cada uma com impactos diferentes sobre o sistema de justiça e, por consequência, sobre a percepção de risco institucional do país.

Por que o Senado recuou na última hora

A proposta de redução da maioridade penal estava prevista como emenda à PEC da Segurança Pública (PEC 18/2025), aprovada na terça-feira (3). A oposição tentou incluir o tema no mesmo pacote, mas Alcolumbre optou por separar a discussão.

Em declaração à imprensa, o presidente do Senado afirmou que a ponderação de Motta foi “razoável” e que buscar manter uma “relação pacífica, cuidadosa e atenciosa” com a Câmara pesou na decisão. Dois senadores apresentavam emendas sobre o tema: Rogério Marinho (PL-RN) e Camilo Santana (PT-CE).

As três propostas em jogo e o que cada uma prevê

O cenário atual coloca em debate três textos com graus variados de rigidez. Entender as diferenças é essencial para antecipar qual versão tem mais chance de prosperar:

  • PEC 20/2026 (Camilo Santana): maioridade aos 16 anos apenas para crimes hediondos; demais crimes mantêm a idade em 18 anos.
  • PEC 19/2026 (Rogério Marinho): redução geral para 16 anos e, para crimes hediondos, tortura, tráfico de drogas, terrorismo e organizações criminosas, idade mínima de 14 anos.
  • PEC 32/2015 (Comissão Especial da Câmara): estabelece maioridade penal e civil aos 16 anos, sem distinção por tipo de crime.

A comissão especial da Câmara analisa a PEC 32/2015 em conjunto com outras propostas sobre o mesmo tema. É ali que o texto ganhará forma final antes de ir ao plenário.

O que está em disputa além da idade

A separação do tema da PEC da Segurança Pública não foi apenas regimental. A proposta original (PEC 18/2025) trata de temas como polícia ostensiva unificada, fundos de segurança e integração de dados — pautas com apelo mais imediato para gestores estaduais e prefeituras.

Misturar a redução da maioridade penal nesse pacote poderia contaminar a votação de medidas consideradas prioritárias pelo governo e por governadores. Alcolumbre optou por blindar a PEC principal e isolar o tema mais sensível.

Impacto direto no ambiente de negócios e risco jurídico

Para investidores e empresários, a tramitação dessa matéria sinaliza dois vetores importantes. Primeiro: a capacidade do Congresso de construir consensos em pautas de alta sensibilidade social sem travar a agenda econômica. Segundo: a sinalização sobre como o Estado pretende lidar com criminalidade juvenil, o que afeta custos de segurança privada, seguros e planejamento urbano.

Dados do UNICEF citados em debates recentes mostram que nenhum país do G20 adota maioridade penal abaixo dos 18 anos. A eventual aprovação colocaria o Brasil em posição isolada entre as maiores economias, o que pode pesar em relatórios de risco país e análises de direitos humanos por fundos internacionais.

O que observar nas próximas semanas

Três marcos definem o ritmo daqui para frente: a instalação e o cronograma da comissão especial na Câmara; a disposição de Hugo Motta em pautar o tema ainda em novembro, como prometido; e a articulação entre as bancadas para consolidar um relatório único a partir das três propostas.

Se a Câmara cumprir o prazo, o texto retorna ao Senado para votação final em dois turnos. Qualquer alteração de mérito reinicia a contagem. Para quem monitora risco legislativo, a janela de novembro é o primeiro teste real de viabilidade política da medida.

Resumo prático: a maioridade penal não será votada hoje no Senado. O debate migra para a Câmara com prazo autoimposto de novembro. Três textos competem. A versão final definirá se a redução é geral, restrita a crimes hediondos ou inclui idade de 14 anos para casos graves. Acompanhe a composição da comissão especial — ela ditará o ritmo e o conteúdo da proposta que, se aprovada, altera o Código Penal e a Constituição.