Em seu discurso na ONU, Lula disse que “a floresta vale mais em pé” e que “ninguém está acima da lei”. Um mês depois, na Paulista, prometeu o mandato em que mais ouviria o povo brasileiro. Entre as duas falas, porém, emerge um abismo que o Planalto ainda não explicou.
O presidente afirmou que a Constituição não é apenas um “livrinho de 1988”, mas um projeto de sociedade livre, plural e antioligárquica. A norma, segundo juristas, opera em duas camadas: regras de jogo que não podem ser violadas e direções de futuro que exigem fidelidade ativa na construção de direitos.
O que mudou entre a ONU e a Paulista
Na Assembleia Geral, o tom foi de alerta global contra tecno-oligarcas que desequilibram eleições sem regulação transparente. Na vitória, o foco virou para dentro: “quando o governante não sabe o que perguntar, o povo ensina”. A frase soou como compromisso de participação direta.
Só que a prática imediata aponta outra direção. Apoiadores históricos cobram mais diversidade e impessoalidade nas nomeações para tribunais superiores. O que se vê, segundo bastidores, é pressão de blocos do STF e do Senado por juristas alinhados ao establishment — o que críticos chamam de “vorcariado magistocrático”.
O entrave das vagas nos tribunais superiores
Há vagas abertas no STJ e no TSE. Nomes ventilados nos corredores são descritos como “medíocres e invertebrados” por quem acompanha a indicação. A acusação: tribunais já autodestruídos pela corrupção institucional receberiam reforços que não alterariam o status quo.
- STJ: duas cadeiras vagas desde 2025
- TSE: uma vaga de ministro efetivo e duas de substitutos
- Prazo: indicações precisam passar por sabatina no Senado
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tem influência direta no ritmo das sabatinas. Parlamentares da base e da oposição negociam nomes em troca de apoio a pautas prioritárias do Executivo.
Pragmatismo ou cumplicidade?
O argumento do Planalto costuma ser a governabilidade: sem acordos, pautas econômicas e sociais travam. Juristas constitucionais rebatem que fidelidade ao projeto da Carta de 88 não se cumpre na “coreografia da escuta popular”, mas na coragem de contrariar interesses consolidados.
O termo “vorcariado” — cunhado para descrever a fusão de burocracia judiciária e fisiologismo parlamentar — ganhou força nos últimos meses. Ele designa quem lucra com a degradação institucional e bloqueia reformas que ameacem seus privilégios.
O que observar daqui para frente
As próximas indicações para STJ e TSE funcionarão como teste real do discurso da Paulista. Se os nomes vierem de listas negociadas com o bloco do STF e o centrão, a promessa de “mudar o jeito de governar” terá ficado na retórica. Se houver ruptura com o padrão — perfis técnicos, diversidade, independência —, o sinal será de que a “inteligência coletiva” citada na ONU começou a operar no Palácio do Planalto.
Para investidores e analistas de risco político, o critério das nomeações judiciais tornou-se indicador先行 de solidez democrática. Acompanhar as sabatinas no Senado nas próximas semanas dirá mais sobre o rumo do país do que qualquer discurso em Nova York ou na avenida Paulista.
