Em setembro e outubro de 2026, o presidente Lula usou a tribuna da ONU e o palanque da Paulista para anunciar um novo método de governar: escuta ativa, participação popular e fidelidade irrestrita à Constituição. A retórica empolgou aliados e mercado, mas uma fratura exposta nos bastidores coloca em xeque a execução desse plano.
Dois palcos, uma mesma aposta na participação
Na Assembleia Geral das Nações Unidas, o chefe do Executivo alertou para riscos à soberania e à democracia, defendendo que “a floresta vale mais em pé”. Um mês depois, na festa da vitória, foi além: prometeu “mudar o jeito de governar” e declarou que o povo ensinaria o que fazer quando o governante não soubesse o que perguntar.
A aposta central é a de que a legitimidade do novo mandato nasce da mobilização orgânica que surpreendeu analistas e derrotou o que o discurso chamou de “tecno-oligarcas”. A promessa é transformar essa energia em método permanente de gestão.
A Constituição como bússola: regras vs. projeto de sociedade
Para além do simbolismo, juristas distinguem duas dimensões na normatividade constitucional invocada pelo presidente. A primeira é a dimensão institucional: desenha órgãos, define competências e estabelece limites intransponíveis — o campo do “pode” e “não pode”.
A segunda, mais ambiciosa, é a dimensão projetiva. Ela aponta valores a serem construídos: uma sociedade livre, plural, antioligárquica e voltada ao bem-estar das gerações futuras. Não se trata apenas de evitar violações, mas de exigir fidelidade ativa na construção desse futuro.
O abismo entre a fala e a caneta
É nesse segundo patamar que a promessa de “ouvir o povo” encontra o primeiro grande teste prático — e tropeça. Setores expressivos da base que garantiu a reeleição cobram, há tempos, critérios de diversidade, impessoalidade e institucionalidade nas nomeações para o governo e o Judiciário.
Até o momento, a resposta tem sido o silêncio. A manutenção de práticas tradicionais de ocupação de cargos contrasta frontalmente com o compromisso de romper com a velha política.
A pressão invisível do “vorcariado”
Nos corredores de Brasília, a dinâmica é outra. Reportagens indicam que blocos internos do Supremo Tribunal Federal (STF), em articulação com a cúpula do Congresso — especificamente a figura do senador Davi Alcolumbre —, exercem pressão por indicações de perfis considerados “medíocres e invertebrados” para vagas nos tribunais superiores.
O termo “vorcariado”, usado para descrever a fusão de interesses parlamentares e magistocráticos que se autoperpetuam, resume o obstáculo estrutural. Ceder a essa engrenagem não é pragmatismo; é, na prática, terceirizar o futuro do projeto constitucional prometido nas urnas.
- Promessa de campanha: Nomeações técnicas, diversas e impessoais.
- Realidade atual: Articulações de bastidor para manter controle político sobre o Judiciário.
- Risco imediato: Esvaziamento da confiança da base social que elegeu o governo.
O que observar daqui para frente
O próximo trimestre será decisivo. A abertura de vagas nos tribunais superiores funcionará como termômetro real da disposição do Planalto em enfrentar o establishment institucional. Se a caneta continuar refém das negociações de sempre, o discurso da “escuta popular” terá sido apenas coreografia.
Para o investidor e o empresário, o sinal a monitorar não é retórico: é a composição técnica e a independência real das novas cortes. A estabilidade regulatória e a segurança jurídica de longo prazo dependem menos do que se diz na ONU e mais de quem senta nas cadeiras de Brasília nos próximos meses.
