O Grupo Pão de Açúcar (GPA) fechou o terceiro trimestre com prejuízo líquido consolidado de R$ 731 milhões, revertendo o lucro de R$ 134 milhões visto um ano antes. A cifra assusta, mas o CEO Alexandre Santoro avisa: a “foto” do balanço não conta o “filme” da reestruturação. O Ebitda ajustado, termômetro da saúde operacional, saltou 16,9% na comparação anual, para R$ 482 milhões.
O peso das operações que ficaram para trás
Grande parte do vermelho no resultado final vem de ativos que a companhia já decidiu encerrar. Hipermercados Extra e postos de combustíveis respondem sozinhos por R$ 511 milhões de prejuízo no período. Sem esses passivos, a imagem da varejista muda de figura.
A receita líquida caiu 6,5%, para R$ 4,6 bilhões, impacto direto da saída do formato Aliados e de gargalos de abastecimento durante o processo de recuperação extrajudicial, homologada em 7 de outubro. No acumulado de 2026, as vendas somam R$ 12,7 bilhões ante R$ 14 bilhões no mesmo intervalo do ano passado.
Eficiência: o motor que o mercado está de olho
O “Plano de Eficiência” começou a entregar números concretos. A varejista cortou cerca de 20% do quadro corporativo, eliminou contratos deficitários, reduziu verbas de publicidade e otimizou fretes. O resultado aparece na margem: o Ebitda ajustado cresceu 7% frente ao trimestre anterior, sinalizando que a base de custo está mais leve.
Para Santoro, a equação é de sobrevivência. A dívida em renegociação supera R$ 4,3 bilhões, e resolver passivos fiscais, trabalhistas e arbitrais é prioridade zero ao lado da redução de despesas.
Os três pilares da virada
- Simplificação radical: Fim de sortimentos que não vendem (ex: sushi em lojas de baixo giro) e foco no que gera caixa.
- Saneamento de passivos: Endereçar dívidas estruturais herdadas de gestões anteriores.
- Retomada de vendas: Crescer receita sem queimar margem, corrigindo a perda de market share dos últimos anos.
Extra: a joia que precisa de polimento
A bandeira Extra responde por um terço da receita total e virou a “menina dos olhos” da reestruturação. O foco é reposicionar preço e sortimento, fortalecendo perecíveis — frutas, legumes, verduras e proteínas — para rivalizar com Carrefour, St. Marche e Oba Hortifruti. Times técnicos novos e fornecedores revisados fazem parte do pacote para recuperar a fatia de mercado perdida.
Regionalização e o fim do “tamanho único”
Acabou o modelo único para todo o Brasil. O GPA criou representações no Rio de Janeiro, Brasília e Recife para calibrar o mix de produtos à realidade local. A lógica é simples: o que vende no Nordeste não necessariamente gira em São Paulo. Essa granularidade deve reduzir perdas e melhorar o giro de estoque nas gôndolas.
O que observar daqui para frente
O próximo balanço será o teste de fogo: a recuperação extrajudicial já está homologada e o abastecimento deve normalizar. Investidores devem monitorar dois indicadores: a evolução da receita em mesmas lojas (SSS) — que caiu no trimestre por efeito calendário e rupturas — e a capacidade de converter o ganho de Ebitda em fluxo de caixa livre sustentável. Se a regionalização e o “novo Extra” entregarem o prometido, o prejuízo contábil de hoje pode virar lucro operacional amanhã.
