A Eve, subsidiária da Embraer, confirmou a venda de até 12 aeronaves elétricas de pouso e decolagem vertical (eVTOLs) para a startup brasileira Flybis. O contrato prevê duas unidades firmes e opção de compra para outras dez, com entregas projetadas para começar em 2028.
A movimentação sinaliza o primeiro passo concreto para conectar polos turísticos de alto valor no Sul do país. Mas a data de 2028 esconde uma corrida regulatória e tecnológica que ainda está longe da linha de chegada.
O mapa das primeiras rotas comerciais
A Flybis não comprou apenas aeronaves; comprou um corredor logístico. O plano de voos iniciais foca em duas frentes distintas, ambas com forte apelo turístico e corporativo:
- Litoral Norte de Santa Catarina: Ligação triangular entre Navegantes, Balneário Camboriú e Florianópolis.
- Serra Gaúcha: Rotas turísticas conectando Gramado e Bento Gonçalves.
A escolha não é aleatória. Essas regiões concentram alta densidade de renda, fluxo sazonal intenso e gargalos viários terrestres que tornam o modal aéreo competitivo mesmo com custos operacionais elevados.
Por que este acordo muda o jogo para investidores
Diferente de cartas de intenção assinadas em 2022, este é um contrato de compra firme, ainda que pequeno. Para o mercado, isso valida dois vetores críticos:
- Demanda real: Operadores regionais estão dispostos a assumir risco de frota antes da certificação final.
- Modelo de negócio: A aposta no turismo de luxo e deslocamento executivo curto (até 100 km) como porta de entrada da mobilidade aérea urbana.
Mas o efeito mais relevante aparece na cadeia de suprimentos e infraestrutura. Vertiportos, recarga rápida e manutenção especializada precisam sair do papel em menos de quatro anos.
O gargalo técnico: transição de voo e certificação
A Eve realizou em agosto o primeiro teste de transição do seu protótipo — a manobra onde a aeronave deixa o voo pairado (vertical) e acelera para o voo de asa fixa (horizontal). É a fase mais crítica do envelope de voo.
O sucesso do teste permite avançar na campanha de certificação junto à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Sem o Certificado de Tipo, nenhuma das 12 unidades pode operar comercialmente. O cronograma de 2028 assume que não haverá surpresas regulatórias — um cenário otimista para padrões brasileiros.
O que vem depois da primeira geração
O CEO da Eve, Johann Bordais, já admite publicamente que a aeronave atual tem limite: 100 km de autonomia. A solução estudada para a segunda geração é a propulsão híbrida (elétrica + combustível).
Se viável, o modelo híbrido expande o raio de ação para além do turismo de curta distância, abrindo espaço para deslocamentos interurbanos de média extensão — como São Paulo–Rio ou Belo Horizonte–Vitória — sem depender de infraestrutura de recarga massiva.
O que observar daqui para frente
Três marcos definirão se o contrato da Flybis vira operação real ou fica no hangar:
- Certificação Anac/EASA/FAA: A validação tripla (Brasil, Europa, EUA) é pré-requisito para produção em série.
- Infraestrutura de solo: Aprovação de vertiportos em áreas urbanas densas (Balneário Camboriú, Gramado) envolve zoneamento, ruído e segurança pública.
- Capital de giro da Flybis: Exercer as 10 opções de compra exige caixa robusto ou financiamento estruturado em um cenário de juros ainda elevados.
Para quem acompanha o setor, o sinal verde não é a assinatura do papel — é o primeiro eVTOL pousando com passageiro pagante em um vertiporto homologado. Até lá, 2028 continua sendo uma meta, não uma garantia.
