Economia

Escândalo no Ueno Bank: 8 presos, impeachment de Peña e US$ 850 mi em risco

Sede do Ueno Bank no Paraguai com clientes preocupados diante do fechamento repentino
Fachada do Ueno Bank, epicentro do maior escândalo financeiro do Paraguai

O maior banco digital do Paraguai fechou as portas da noite para o dia, deixando 3 milhões de clientes no limbo e arrastando o presidente Santiago Peña para o centro de um pedido de impeachment. O estopim foi a prisão de oito executivos e a decretação de recuperação judicial do Ueno Bank, instituição que, em três anos, capturou 60% da população adulta do país.

Mas o buraco é mais fundo: quase um terço dos depósitos da instituição — US$ 850 milhões (R$ 4,66 bilhões) — eram dinheiro público. A Promotoria já abriu investigação criminal e a oposição acelera a coleta de assinaturas para destituir o chefe do Executivo.

Como uma fintech virou “banco sistêmico” em tempo recorde

Fundado em 2021, o Ueno saiu do zero para se tornar o quarto maior banco paraguaio em ativos. A receita: agências de alto padrão, patrocínio da seleção nacional de futebol e marketing onipresente. Controlado pelo Grupo Vázquez, o banco replicou a trajetória de Nubank e Monzo, mas com um diferencial perigoso: crescimento alimentado por recursos do Tesouro.

Sob a gestão de Peña, os depósitos públicos no Ueno saltaram para o equivalente a 30% do passivo total. O presidente, que foi investidor da holding controladora até março de 2025, repetidamente descartou riscos — mesmo diante de alertas sobre empréstimos concentrados em empresas do próprio grupo controlador.

O rastro de alertas ignorados pelo mercado

Os sinais vermelhos não eram novidade para quem acompanhava os números:

  • Março/2024: maior emissão de títulos corporativos da história do Paraguai;
  • Abril/2024: Fitch revisa outlook para “negativo”, citando “crescimento acelerado do balanço e altos ativos intangíveis”;
  • Maio/2024: ações despencam e títulos com vencimento em 2031 passam a negociar com prêmio de risco elevado;
  • Junho/2024: renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, nomeado por Peña.

Carvallo havia se declarado impedido de atuar em decisões sobre o Ueno, mas a proximidade política manteve a pressão sobre a autarquia. O Financial Times revelou que a supervisão falhou em conter a concentração de risco.

O que está garantido — e o que não está

O Banco Central assegurou cobertura de até US$ 38 mil (R$ 208,4 mil) por correntista via fundo garantidor. Para a grande maioria dos 3 milhões de clientes pessoa física, o dinheiro está protegido. O problema concentra-se em empresas e grandes investidores com saldos acima do teto — justamente o segmento que abasteceu a expansão agressiva do banco.

A autarquia classifica o caso como “isolado” e não representativo do sistema. Analistas, porém, veem teste decisivo para a credibilidade do Paraguai, que acabou de conquistar grau de investimento e atrai capital brasileiro em volume crescente.

O elo político que pode derrubar o governo

A oposição alega desvio de finalidade na aplicação de verbas públicas no Ueno. O pedido de impeachment baseia-se na tese de que Peña usou o cargo para beneficiar instituição na qual tinha interesse financeiro direto até poucos meses atrás. O gabinete presidencial e o banco não comentaram as acusações até o fechamento desta reportagem.

Enquanto a Justiça analisa a viabilidade do impeachment, a recuperação judicial do Ueno começa a desenhar o tamanho do prejuízo para credores não cobertos pelo fundo garantidor. A venda de ativos e a renegociação de dívidas do Grupo Vázquez ditarão o ritmo da liquidação.

O que observar nas próximas semanas

Três frentes definirão o desdobramento prático para investidores e empresários com exposição ao Paraguai: (1) a celeridade do Banco Central na liquidação extrajudicial e pagamento do fundo garantidor; (2) o andamento do inquérito criminal da Promotoria, que pode revelar a extensão dos empréstimos cruzados; (3) a reação dos títulos soberanos paraguaios — qualquer contágio sistêmico elevará o prêmio de risco do país justamente no momento em que busca consolidar o grau de investimento.

Para quem opera na região, a lição imediata é clara: crescimento vertiginoso financiado por dinheiro público e supervisionado por regulador politicamente alinhado costuma deixar uma conta que chega sem aviso prévio.