O Canva vai demitir 1.271 profissionais — 22% do quadro global — depois de registrar a primeira desaceleração de receita em uma década. A decisão, anunciada pela CEO Melanie Perkins, redesenha a estrutura da empresa australiana e sinaliza uma mudança de ciclo para o setor de software de design.
Até aqui, a plataforma crescia em linha reta. Agora, a liderança aposta em equipes menores, menos camadas de gestão e mais dias de escritório para recuperar o fôlego.
Por que o corte acontece agora
Pela primeira vez desde a fundação, o ritmo de expansão arrefeceu. Perkins admitiu em comunicado interno que 2024 foi “o ano mais difícil até agora” e que ajustes incrementais não seriam suficientes para preparar a companhia para a próxima década.
A resposta foi uma reorganização profunda: as áreas de Produto, Crescimento e Plataforma serão fundidas em uma única estrutura, com poder de decisão descentralizado para times enxutos.
O que muda na prática para quem fica
- Hierarquia achatada: redução de níveis gerenciais para acelerar aprovações.
- Base geográfica: a maioria dos times de produto migra para Sydney, que passa a ser o hub central.
- Regime híbrido: a partir de janeiro, a expectativa sobe de dois para três dias presenciais por semana (pode variar por região).
A aposta é que a proximidade física e a autonomia compensem a perda de escala.
Pacote de saída: números que importam
Os 1.271 desligados recebem:
- Mínimo de seis meses de salário;
- Doze meses de plano de saúde (onde o benefício existe);
- Assessoria de recolocação com preparação para entrevistas e orientação de carreira;
- Posse dos notebooks corporativos.
O pacote espelha o anunciado no dia anterior pela Squarespace, que cortou 19% da força de trabalho com benefícios semelhantes — sinal de que o padrão de “desligamento responsável” virou referência no setor.
Efeito cascata no ecossistema de SaaS
Duas grandes plataformas de criação anunciam cortes expressivos em 24 horas. Não é coincidência: investidores passaram a cobrar rentabilidade em vez de crescimento a qualquer custo, e empresas que queimavam caixa para ganhar market share agora ajustam a estrutura de custos.
Para fundadores e gestores de startups brasileiras, o recado é claro: rodadas de capital barato acabaram; eficiência operacional virou métrica de sobrevivência.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se a reestruturação funciona:
- Velocidade de lançamento de novos recursos com times menores;
- Retenção de talentos-chave após o choque cultural do retorno ao escritório;
- Reação do mercado — se a receita por funcionário subir nos próximos dois trimestres, o modelo valida-se.
Enquanto isso, concorrentes como Adobe Express e Figma observam a brecha: se o Canva perder agilidade, a disputa pelo designer não técnico reabre. Acompanhe os relatórios trimestrais de novembro — eles dirão se a cirurgia curou o paciente ou apenas estancou o sangramento.
