Ciência

O modelo “quatro mãos” que leva ciência da UFSC para Embraer e Whirlpool

Pesquisadores da UFSC e engenheiros da indústria colaboram em centro de tecnologia avançada
Modelo "quatro mãos" da UFSC conecta ciência e indústria para inovação ágil no Brasil.

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) transformou dois centros de pesquisa em pontes diretas para a indústria, atendendo gigantes como Embraer, Petrobras e Whirlpool sem a lentidão dos editais tradicionais. O segredo é um modelo de gestão ágil onde empresa e universidade desenham o projeto “a quatro mãos”, do diagnóstico à entrega técnica. Veja como essa engrenagem funciona e por que ela reduz o risco de inovar no Brasil.

A engrenagem que elimina a espera por editais

No centro da operação está a atuação da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), que financia parte do desenvolvimento e permite contratação em fluxo contínuo. Na prática, isso significa que a empresa procura a universidade quando a necessidade surge, não quando um calendário público permite.

A gestão administrativa fica a cargo da FEESC (Fundação de Ensino e Engenharia de Santa Catarina), que resolve a burocracia inerente às instituições públicas. Segundo o pró-reitor Jacques Mick, esse suporte é o que torna viável cumprir prazos de mercado mantendo o rigor científico.

inoVARE: Do ruído da cabine da Embraer à eficiência da Whirlpool

Criada em 2014, a unidade inoVARE acumula mais de 40 projetos concluídos com foco em vibrações, acústica, refrigeração e energia. O portfólio revela a amplitude das aplicações:

  • Aeronáutica: Estudo de ruído interno para a Embraer visando conforto acústico de passageiros.
  • Energia e Óleo/Gás: Soluções para a Petrobras em condições extremas de operação.
  • Eletrodomésticos: Ganhos de eficiência energética e vibração para Nidec e Whirlpool.

A equipe ataca problemas específicos de cada linha de produção, transformando dor de cabeça de engenharia em dado técnico validado.

Move: A aposta na eletrificação que nasceu no Rota 2030

Mais nova, a unidade Move começou em 2022 já com 14 laboratórios e 80 pesquisadores dedicados à mobilidade — veículos, aeroespacial, naval e ferroviário. O diretor Rodrigo Vieira explica que a origem está no programa Rota 2030, focado em eletrificação veicular.

Atualmente, são 20 projetos contratados (12 finalizados). Dois destaques mostram o alcance:

  • Ferramentas de engenharia para superfícies móveis de asas de aeronaves.
  • Desenvolvimento de tecnologia para carregadores de veículos elétricos.

A duração média gira em torno de 18 meses, variando conforme a complexidade técnica exigida pelo parceiro industrial.

Como fechar parceria: fluxo contínuo e subsídio para pequenas empresas

O processo inicia com a apresentação do desafio técnico pela empresa. A universidade analisa a viabilidade, monta a proposta e, se necessário, assina acordos de confidencialidade para proteger segredos industriais.

Uma vantagem estratégica pouco divulgada: em modalidades específicas, micro e pequenas empresas acessam recursos federais e do Sebrae que reduzem drasticamente o aporte próprio. Isso democratiza o acesso a P&D de ponta, antes restrito a grandes corporações.

O que observar daqui para frente

A maturidade desse modelo na UFSC sinaliza uma mudança estrutural: a universidade pública deixa de ser apenas formadora de mão de obra para se tornar fornecedora recorrente de propriedade intelectual aplicada. Para gestores e investidores, o movimento a monitorar é a expansão dessa rede para além de Santa Catarina, replicando a governança ágil da FEESC em outras federações. Se a burocracia deixar de ser gargalo, a taxa de conversão de ciência em produto no Brasil pode finalmente acelerar.