O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá o poder de indicar seis dos nove diretores do Banco Central até dezembro de 2027. Duas vagas estão abertas desde janeiro, outras duas surgem em fevereiro de 2025 e as duas restantes no fim do mandato. A composição do Copom — e, por consequência, o rumo da Selic — entra numa zona de turbulência que o mercado ainda não precificou por completo.
Não é apenas troca de nomes. É a possibilidade de virar o jogo na autoridade monetária.
O xadrez das cadeiras e a data da virada
Hoje, o colegiado tem nove assentos. Três foram preenchidos por Lula no mandato atual: Gabriel Galípolo (presidente), Gilneu Vivan e Izabela Correa. Seus mandatos terminam juntos, em 31 de dezembro de 2028.
A partir de 2028, os seis novos indicados formam maioria absoluta. O desenho atual:
- 2 vagas abertas desde janeiro de 2024 (Política Monetária e Fiscalização);
- 2 vagas abrem em fevereiro de 2025 (Relacionamento Institucional e Administração);
- 2 vagas abrem em 31 de dezembro de 2027 (Organização do Sistema Financeiro e outra).
Enquanto as cadeiras vazias não são preenchidas, a máquina trava. Caio Megale, economista-chefe da XP, resume: “Quase um ano começa a fazer diferença no trabalho do BC. Quando você acumula diretorias, naturalmente começa a faltar braço.”
O fantasma de maio de 2024 ainda assombra
O mercado tem memória curta, mas não esqueceu 8 de maio. Naquela reunião do Copom, Galípolo e todos os indicados por Lula votaram por um corte de 0,50 ponto na Selic. Perderam por 5 a 4. O colegiado manteve o passo de 0,25 ponto, levando a taxa a 10,5% ao ano.
Desde então, todas as decisões foram unânimes. Mas a fratura expôs uma tensão latente: até onde o BC está disposto a ir na queda de juros?
A preocupação central de investidores e analistas é uma só: leniência com a inflação para forçar a Selic para baixo. A meta hoje é 3%, com banda de 1,5 ponto para cima ou para baixo. O debate sobre flexibilizá-la já voltou à mesa.
O nome que fez o mercado tremer — e o que ele disse
Na semana passada, o rumor da indicação de André Roncaglia, diretor-executivo do FMI e economista de perfil desenvolvimentista, mexeu com os preços. A reação foi imediata: curva de juros abriu, real enfraqueceu.
Roncaglia negou qualquer convite. Disse ter ficado surpreso com as reportagens e afirmou: “O fundo reconhece o valor das reformas econômicas empreendidas nos últimos anos e o papel do BC na manutenção da estabilidade.”
Um ex-dirigente do BC, sob anonimato, foi direto: a indicação causaria turbulência, abalaria a credibilidade da autarquia e passaria a sinal de que Galípolo está enfraquecido.
Dois cenários, uma incógnita
Gustavo Loyola, ex-presidente do BC e sócio da Tendências Consultoria, vê risco de o governo transformar a autoridade monetária em “bode expiatório” se o fiscal não andar e a popularidade cair. “Aumentar a meta é uma jogada de toalha, a confissão de fracasso. Vai ser um ponto de atenção nos próximos meses.”
Já Sérgio Werlang, ex-diretor do BC e professor da FGV, aposta na manutenção do perfil “moderadamente conservador” — no estilo Galípolo e Paulo Picchetti. “Lula sabe que inflação alta significa falta de popularidade na veia. Não vejo grande modificação.”
Rodrigo Maia, do BTG Pactual, corrobora: “O Lula é forjado na negociação. Não acho que ele fará diferente.”
O teste da diversidade e a fila da Fiscalização
Hoje, apenas Izabela Correa ocupa uma diretoria. O nome de Carolina Bohrer, chefe do departamento de Organização do Sistema Financeiro, circula com a simpatia de Galípolo para compor a cúpula.
Para a diretoria de Fiscalização — vaga a partir de março —, a aposta do mercado é um servidor de carreira. A recondução de Aílton Aquino não está descartada, apesar do desgaste com o caso Banco Master. Ele depôs à PF sobre a liquidação da instituição de Daniel Vorcaro. Internamente, seu trabalho tem respaldo.
O que observar daqui para frente
As duas vagas abertas há quase um ano são o termômetro imediato. A rapidez — e o perfil — das indicações dirão se o governo prioriza continuidade técnica ou sinalização política. Enquanto o Senado não sabatina, o BC opera com “braço curto”.
Para quem gere risco, a leitura é clara: majority rule chega em 2028. Até lá, cada nome anunciado move a curva. Acompanhe as sabatinas, leia os relatórios de inflação e, principalmente, observe se a meta de 3% permanece intocável. É nela que mora a âncora — ou a deriva.
