Economia

Chinesa Envision condiciona fábrica de baterias no Brasil a ‘sinal’ do governo

Executivo da Envision Energy apresenta projeto de fábrica de baterias e turbinas eólicas no Brasil durante evento Brazil Windpower
Marcello Trombelli, diretor da Envision, condiciona investimento bilionário a incentivos do governo brasileiro.

A Envision Energy, uma das maiores fabricantes mundiais de tecnologia verde, confirmou que tem projeto para erguer fábrica de baterias e turbinas eólicas no Brasil, mas deixou claro: o investimento só sai do papel se houver reciprocidade do poder público. A condição foi exposta pelo diretor Marcello Trombelli durante o evento Brazil Windpower.

A empresa chinesa já opera no país com contratos de peso, mas depende de incentivos fiscais e ex-tarifários para nacionalizar a produção de equipamentos que ainda não existem por aqui. A decisão do governo pode ditar o ritmo da transição energética nos próximos anos.

O que o executivo chamou de “interesse” do governo

Trombelli foi direto ao ponto: não basta abertura de mercado, é preciso competitividade. Para trazer linhas de montagem de aerogeradores e sistemas de armazenamento (BESS), a Envision lista pré-requisitos concretos:

  • Incentivos fiscais estaduais e federais;
  • Ex-tarifários para importação de componentes sem similar nacional;
  • Regras claras de conteúdo local para o leilão de baterias de dezembro.

Sem esses mecanismos, a conta não fecha. A fabricante argumenta que suas tecnologias são “inéditas” no mercado brasileiro e exigem curva de aprendizado e escala para se viabilizarem.

Contrato de 630 MW já assinado, mas com equipamento importado

O movimento não é especulativo. Em janeiro, a Envision fechou seu maior negócio local: o fornecimento de 630 megawatts em turbinas para a Casa dos Ventos. O detalhe crucial é que esse primeiro lote virá de fora. A nacionalização ficaria para uma segunda fase, condicionada justamente aos estímulos agora negociados.

Esse acordo ganhou destaque por surgir no meio de uma seca prolongada de encomendas. Gigantes como GE e Siemens Gamesa paralisaram atividades no Brasil por falta de pedidos, enquanto concorrentes chinesas — Goldwind, Sinoma e Windey — avançavam no vácuo deixado.

A corrida do armazenamento e o leilão de dezembro

Se o vento é o presente, a bateria é o futuro imediato. A Envision mira o primeiro leilão exclusivo para sistemas de armazenamento (BESS), marcado para dezembro. O edital deve exigir índice de nacionalização, o que obriga players estrangeiros a se aliarem a parceiros locais ou abrirem fábrica própria.

A concorrência já se mexeu:

  • BYD anunciou aporte de até R$ 500 milhões para produzir BESS no país;
  • CATL e Jinko ESS fecharam parcerias com integradores brasileiros para atender ao requisito de conteúdo local.

A Envision diz estar “seguindo a cartilha” e costurando alianças, mas a fábrica própria daria autonomia estratégica e margem maior nos contratos de longo prazo.

O que observar daqui para frente

O xadrez agora está nas mãos do governo. A sinalização sobre ex-tarifários e a definição final das regras do leilão de BESS funcionarão como gatilho. Se houver previsibilidade regulatória e incentivos competitivos até o segundo semestre, a Envision tende a confirmar o groundbreaking. Caso contrário, o Brasil segue importando tecnologia que já poderia ser feita aqui — e o caixa do investimento chinês migra para mercados vizinhos com regras mais claras.