O economista José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de reeleição de Lula, afirma que o quadro fiscal brasileiro é “menos dramático” do que prega o mercado, mas defende ações concretas para cortar o déficit. Em artigo publicado nesta segunda (2), ele detalha dez frentes de arrecadação e faz um aceno direto à polêmica proposta de André Lara Resende para limitar a Selic.
A declaração chega enquanto o Ministério da Fazenda, nas mãos de Dario Durigan, nega qualquer estudo sobre tabelamento de juros. O choque entre o diagnóstico do time de campanha e a linha oficial do governo expõe a tensão que deve ditar os próximos passos da política econômica.
O diagnóstico: “austericídio” e a conta dos juros altos
Para Gabrielli, a dívida bruta em 82,9% do PIB — o maior patamar desde 2021 — não é resultado apenas de gastos excessivos, mas do custo da Selic a 13,75% ao ano. O economista retoma o termo “austericídio” para classificar o ajuste fiscal proposto pelo arcabouço atual, argumentando que juros elevados fazem a dívida crescer mais rápido que a riqueza do país.
Nessa conta, a proposta de Lara Resende ganha status de “atenção especial”. O artigo sugere criar um mecanismo de coordenação entre política monetária e fiscal mais amplo que o atual CMN (Conselho Monetário Nacional), tirando do Banco Central o monopólio da decisão sobre o custo do dinheiro.
Dez frentes para engordar a receita sem novo imposto
Baseado nas fundações Perseu Abramo, João Mangabeira e Rede Brasil Sustentável, Gabrielli mapeou medidas de curto e médio prazo. O foco é eficiência e revisão de benefícios, não elevação de alíquotas. Confira os principais eixos:
- Revisão de contratos: energia, telecomunicações, imóveis e compras padronizadas próximos ao vencimento.
- Incentivos tributários: concessão apenas com prazo, objetivo e contrapartidas definidos.
- Emendas parlamentares: alinhamento a programas estruturantes, acabando com a pulverização sem critério.
- Previdência: diversificar fontes de custeio até 2027, incluindo trabalho por plataforma, sem mexer em idade mínima ou indexação.
O economista frisa que não há proposta de nova idade mínima, redução de indexação ou barreiras de elegibilidade como “atalho fiscal”. A aposta é na ampliação da base de contribuintes.
O racha no discurso oficial e a reação da Faria Lima
Enquanto Gabrielli elogia o tabelamento, o ministro Durigan foi taxativo no domingo (1): a ideia não está no radar do presidente. A tentativa de blindar a autoridade monetária, contudo, não silenciou a base. A deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) classificou o artigo de Lara Resende como “fundamental para enfrentar a ofensiva terrorista sobre a política fiscal”.
Já o presidente do PT, Edinho Silva, tentou fechar a porteira: apenas Durigan fala em nome da economia. “Especulações não colaboram com o país”, disse. A divergência pública expõe a disputa narrativa entre a ala política, que quer espaço fiscal para programas sociais, e a equipe técnica, focada na credibilidade do arcabouço.
O recado ao mercado: “A Faria Lima apostou no adversário”
Gabrielli vai além da técnica e parte para a leitura política da volatilidade recente. Segundo ele, a reação negativa à reeleição de Lula decorre de uma aposta errada do mercado financeiro na vitória do adversário nas urnas. “A Faria Lima quer pautar o programa do presidente eleito, mesmo tendo apostado no seu adversário”, escreve.
A frase sinaliza que o time de campanha não pretende ceder à pressão por um ajuste mais agressivo no curto prazo. A estratégia parece ser ganhar tempo para que as medidas de receita surtam efeito, enquanto se debate — nos bastidores — a arquitetura dos juros.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo nos próximos meses: a capacidade do governo de aprovar a revisão de incentivos e contratos no Congresso; a trajetória da dívida/PIB com a Selic em queda (ou não); e a definição sobre quem, de fato, desenha a política monetária. Se a proposta de coordenação fiscal-monetária avançar, o mercado precificará prêmio de risco maior. Se o governo entregar receita extra sem mexer na âncora do BC, a confiança pode voltar. O xadrez está montado; a próxima jogada é do Congresso.
