Economia

A conta invisível das bets: R$ 37 bi perdidos e só R$ 33 mi para a saúde

Ministro Luiz Fux preside audiência no STF sobre proibição de apostas online com representantes de clubes e entidades
Audiência no STF debate proibição de bets: 28 entidades ouvidas, mas famílias de classes C, D e E seguem sem voz.

O Supremo Tribunal Federal reúne 28 entidades nesta terça-feira para debater a proibição das apostas online, mas nenhuma voz representa quem realmente paga a conta. Enquanto clubes e operadoras defendem receitas bilionárias, famílias das classes C, D e E assistem o orçamento doméstico evaporar. O que os números ocultam sobre essa equação?

Quem tem assento à mesa e quem foi silenciado

A audiência pública convocada pelo ministro Luiz Fux escuta dez clubes de futebol, cinco associações do setor de apostas e quatro entidades de radiodifusão. Órgãos de saúde pública, defesa do consumidor e proteção à infância não foram chamados na lista original.

A Advocacia-Geral da União reconheceu o desequilíbrio e pediu a inclusão de instituições como Idec, Dieese e CNBB. Trinta e nove organizações da sociedade civil reforçaram o pedido ao STF. Até o momento, a única ampliação aceita adicionou o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte.

Uma audiência desenhada para ouvir apenas quem perde receita com a proibição levanta uma dúvida fundamental: a serviço de quem está sendo tomada a decisão?

O rosto oculto do vício: a economia doméstica em colapso

Enquanto o debate institucional gira em torno de patrocínios e arrecadação, a pesquisa Mulheres & Bets — realizada pela CLARICE em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA — mapeou o impacto real dentro de casa. Foram mais de 2 mil entrevistas e 60 conversas em profundidade com mulheres das classes C, D e E.

Os dados revelam um padrão assustador de transferência de renda:

  • 4 em cada 10 brasileiras já apostaram online;
  • A maioria joga para complementar a renda (conta de luz, material escolar, alimentação);
  • 14% das mulheres que convivem com apostadores deixaram de pagar contas essenciais;
  • 25% relatam brigas e perda de confiança no ambiente familiar;
  • 23% dos brasileiros conhecem ou presenciaram violência doméstica ligada às apostas;
  • Entre as que tentaram parar e não conseguiram ajuda, 65% citam a vergonha como barreira.

O depoimento de uma jovem de 24 anos na Bahia resume o drama: “Às vezes não tem um grão de comida dentro de casa porque a pessoa jogou”.

A matemática que não fecha: patrocínio versus prejuízo social

O argumento econômico das bets costuma citar o aporte aos clubes. Em 2025, a Série A recebeu cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios — o equivalente a 7% da receita total das equipes.

No mesmo período, os apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O que entrou no futebol corresponde a menos de 3% do valor que saiu do bolso das famílias.

Mas o descompasso fica ainda mais evidente ao olhar para a arrecadação tributária.

A fatura que chega no SUS e no bolso do contribuinte

Entre fevereiro e setembro de 2025, o setor recolheu R$ 6,8 bilhões em tributos e destinações federais. Pela lei, 1% da parcela destinada a políticas públicas deveria ir para o Ministério da Saúde.

Até agosto, porém, haviam chegado à pasta apenas R$ 33 milhões.

Enquanto isso, o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima que os custos anuais de saúde associados a jogos e apostas superam R$ 30,6 bilhões. A conta é paga pelo SUS e, diretamente, pelas famílias que lidam com endividamento, ansiedade e depressão.

A pressão por uma escuta equilibrada

A medida provisória que proibiu as bets segue agora para o Congresso Nacional. O texto só será referendado ou derrubado após um debate que, idealmente, contemple todas as perspectivas afetadas.

Suspender a proibição antes de ouvir as famílias seria decidir primeiro e escutar depois — justamente o inverso do que uma audiência pública deveria garantir.

O que observar daqui para frente

O termômetro político já mudou: em julho, 62% das mulheres apoiavam a proibição; em outubro, o Datafolha registrou 78% de apoio nacional, alta de 13 pontos percentuais desde novembro de 2024.

Para o empresário e o investidor, o sinal é claro: o modelo de negócio baseado em publicidade massiva e captação de renda de baixa escolaridade entrou em zona de risco regulatório. Acompanhe a tramitação no Congresso e a composição final da comissão especial. A definição sobre a destinação efetiva dos tributos para saúde mental e assistência social ditará a viabilidade de longo prazo do setor — ou a sua extinção.