Dra. Patrícia Lima tomou posse como servidora da Secretaria de Saúde do Recife na terça-feira (27) e fez um pedido incomum: quis a lotação na Policlínica e Maternidade Professor Arnaldo Marques. O motivo? Sua mãe, Edilene, trabalha lá como auxiliar de serviços gerais há 23 anos. Mas a história não para por aí.
A escolha que surpreendeu a equipe de RH
Quando a ligação veio no sábado confirmando a vaga, Patrícia não hesitou. “Prontamente eu escolhi a maternidade porque é onde minha mãe trabalha há 23 anos e criou eu e minha irmã a partir dela”, contou ao g1. A obstetra, formada pela Universidade de Pernambuco (UPE), foi a primeira da família a chegar ao ensino superior.
Ela tentou fazer surpresa. Queria contar só com a lotação oficial. Colegas da unidade, no entanto, adiantaram a notícia. “Muita gente conhece a gente e trabalha lá e falaram: ‘Ah, Patrícia, eu vi seu nome, você passou no concurso’.”
Dois dias após a posse, na quinta-feira (29), mãe e filha dividiram o expediente pela primeira vez. O encontro reativou memórias de quem viu a menina crescer nos corredores do hospital.
De faxina à estabilidade: o alicerce invisível
Antes da maternidade, Edilene fazia faxina. O concurso público trouxe estabilidade que mudou a trajetória das filhas. “Ela nunca exigiu da gente de trabalhar, sempre”, disse Patrícia. A mãe parou na sexta série — hoje equivalente ao 7º ano — mas fez da educação das filhas a prioridade absoluta.
Esse suporte permitiu que Patrícia se dedicasse integralmente aos estudos. Vendia canetas para custear a formatura. Colegas da maternidade acompanharam cada etapa e ajudaram financeiramente quando preciso.
Um sonho que nasceu nos corredores do hospital
A relação com a Arnaldo Marques começou na infância. Consultas pediátricas, vacinas, dentista. “Quando eu passava na frente da Arnaldo Marques, eu dizia ‘vou trabalhar aí’.” A profecia da menina virou meta. O concurso de 2024 foi a porta de entrada.
A equipe que a viu criança celebrou a volta. “Muita gente veio falar com a gente, relembrando, emocionada. A gente passando assim, de mãos dadas no hospital, ela fez um almocinho, levou para mim.”
Por que obstetrícia? A resposta está na criação
Patrícia cresceu cercada por mulheres. Quando a mãe não pôde cuidar, uma tia — “segunda mãe” — assumiu. “Minha família é majoritariamente de mulheres que cuidaram de mim. Esse desejo veio no meu coração em retribuição.”
A escolha pela ginecologia e obstetrícia não foi aleatória. Foi resposta direta ao ambiente que a formou. Cada parto que atende hoje ecoa a rede de cuidado que a sustentou.
O retorno ao SUS como decisão estratégica
Além do vínculo público, Patrícia é sócia de uma clínica privada voltada a mulheres e gestantes. A maior parte da atuação, porém, permanece no SUS. “Devo ao SUS a minha formação, aos meus pacientes. Foi fazendo parte da minha carreira mesmo e como retribuição também.”
O concurso trouxe garantia de direitos trabalhistas — ponto crucial para uma médica em idade reprodutiva. A decisão une propósito, segurança e devoção institucional.
- 23 anos de serviço da mãe na mesma unidade
- Primeira da família a cursar ensino superior
- Dois dias entre posse e primeiro plantão conjunto
- 100% da formação custeada pelo sistema público
O que observar daqui para frente
Histórias como a de Patrícia escancaram o efeito multiplicador do serviço público estável. Um cargo de auxiliar de serviços gerais sustentou duas formações superiores e devolveu à rede uma especialista em saúde da mulher. Para gestores e formuladores de política, o caso ilustra como a valorização da base — salários em dia, progressão de carreira, estabilidade — repercute em gerações. O próximo passo? Acompanhar como essa médica, agora com caneta e prontuário na mão, vai transformar o atendimento no mesmo leito onde a mãe passou décadas limpando o chão. O ciclo fechou. A pergunta que fica: quantos outros ciclos esperando para fechar existem nos corredores do SUS?
