O dólar fechou a sexta-feira a R$ 5,447 — maior nível do ano e salto de 9,2% em uma semana pós-eleições. O movimento acendeu o alerta em mesas de operação e forçou revisões imediatas nas projeções de inflação para os próximos dois anos.
Não é só o câmbio. O fenômeno El Niño já encarece a comida na gôndola, e a combinação dos dois fatores empurra o IPCA para cima da meta do Banco Central. A pergunta que fica: até onde o governo consegue segurar a onda sem mexer nos juros?
O choque cambial e o medo do fiscal
A disparada da moeda americana reflete a desconfiança do mercado com a trajetória das contas públicas. Investidores precificam um ajuste fiscal mais fraco do que o necessário para estabilizar a dívida.
Quando o dólar sobe e fica, o repasse é quase imediato em combustíveis, insumos industriais e commodities agrícolas. “Quase tudo responde ao câmbio, em maior ou menor grau”, resume Fábio Romão, da 4intelligence.
Projeções já mudaram — e o teto da meta está em risco
As revisões falaram mais alto que o IPCA-15 de outubro, que veio em 0,32%. Veja como as principais consultorias repositionaram suas apostas para o IPCA cheio:
- 4intelligence: 2026 subiu de 5,18% para 5,31%; 2027 saltou de 4,23% para 5%
- MB Associados: 5,2% em 2026 e 4,5% em 2027
- Daycoval: 5% no próximo ano e 4,2% no seguinte
- Boletim Focus (mediana, pré-eleição): 5,19% e 4,34%
Todas as estimativas furam o teto da banda de tolerância (4,5%) em 2026. Para 2027, a maioria ainda ronda o limite superior.
El Niño já pesa no carrinho de supermercado
Antes mesmo do susto cambial, a comida já pressionava. O IPCA-15 mostrou alta de 1,01% na alimentação no domicílio — maior variação para outubro em cinco anos.
Os vilões da vez:
- Tomate: +24,54%
- Cebola: +13,63%
- Batata-inglesa: +10,96%
- Arroz: +5,8%
Parte do quadro é atribuída aos efeitos iniciais do El Niño, que altera chuvas e temperaturas nas regiões produtoras. A tendência é de persistência ao longo do verão.
Outros vetores que ninguém ignora mais
Além de câmbio e clima, três fatores entram na equação dos analistas para 2026:
- Fim da escala 6×1 — possível elevação de custos trabalhistas
- Reforma tributária — transição pode pressionar preços no curto prazo
- Subsídios a combustíveis — “insustentáveis por muito tempo”, diz Solange Srour, do UBS GWM
Do lado da demanda, o reajuste do Bolsa Família às vésperas da eleição injetou poder de compra imediato. O único contrapeso desinflacionário seria a desaceleração da atividade — mas, com prêmio de risco em alta, seu efeito tende a ser anulado.
O que o Banco Central fará com a Selic?
O mercado precifica Selic a 13,25% ao final de 2024, caindo para 11,75% em 2025. Mas o cenário mudou.
Sem sinalização fiscal crível, o dólar deve permanecer pressionado. Para Srour, não está descartada uma nova alta de juros em 2027. O BC só intervém no câmbio em caso de disfuncionalidade — e, por enquanto, não há sinal de leilão.
O que observar nas próximas semanas
Três movimentos definirão se as projeções pioram ou se estabilizam:
- Anúncio da equipe econômica e primeiras medidas de contenção de despesa
- Evolução do El Niño na safra de verão — monitoramento da Conab e Embrapa
- Comportamento do petróleo e decisão do governo sobre reajustes da Petrobras
O IPCA oficial de outubro sai nos próximos dias. Se vier acima do IPCA-15, a pressão por ação do BC aumenta. Para quem gere caixa, precifica contratos ou planeja investimentos, a regra vale ouro: trabalhe com cenário de inflação acima de 5% em 2026 e juros altos por mais tempo.
