Economia

O segredo da Miolo: como uma vinícola gaúcha conquistou 32 países vendendo espumante para argentinos

Vinhedos da Miolo no Vale dos Vinhedos com garrafas de espumante brasileiro exportado para 32 países
Vinhedos da Miolo no Vale dos Vinhedos, origem do espumante brasileiro que conquistou 32 mercados internacionais.

A Miolo Wine Group despacha 12 milhões de litros por ano e ocupa hoje a posição de vinícola brasileira com maior presença internacional, atuando em 32 mercados. O número impressiona, mas a verdadeira história está nos riscos calculados que levaram a marca do Vale dos Vinhedos para prateleiras improváveis.

Quando o “erro” virou estratégia global

Em 1993, Adriano Miolo enviou 700 garrafas de Reserva Merlot para a rede Fogo de Chão no Texas. Na época, a decisão pareceu aventureira — o mercado interno mal conhecia a marca. Hoje, o CEO classifica aquele movimento como o gatilho que mudou a percepção do vinho brasileiro lá fora e, por reflexo, aqui dentro.

A virada concreta veio em 1994, quando a TAM passou a servir Miolo Seleção nos voos regionais. Passageiros bebiam, gostavam e ligavam para a vinícola perguntando onde comprar. O boca a boca fez o que nenhuma campanha publicitária conseguiria.

Da latada à espaldeira: a aposta na qualidade que ninguém pedia

Enquanto o mercado clamava por vinhos baratos de garrafa azul, a família converteu 30 hectares de latada para espaldeira — sistema que melhora insolação e sanidade das uvas. O objetivo: atingir o segmento de maior valor agregado.

“Todos diziam que a gente deveria produzir vinhos de combate”, relembra Adriano. A teimosia rendeu números: entre 2000 e 2010, o faturamento saltou de R$ 1 milhão para R$ 100 milhões.

Suécia, Argentina e o teste das compras às cegas

Dois episódios recentes ilustram a ousadia atual. Em setembro de 2025, 200 mil garrafas do espumante Cuvée Nº7 seguiram para a Suécia — país sem tradição vitivinícola onde o monopólio estatal compra apenas após degustação às cegas. Dois meses depois, 50 mil garrafas do Punto Final Moscatel cruzaram a fronteira para a Argentina, mercado bairrista e competitivo por excelência.

Ambas as conquistas validam a tese de que qualidade técnica supera preconceito de origem.

Arquitetura de marcas: por que Almadén e Renacer continuam com nomes próprios

O portfólio reúne 150 rótulos, mas nem todos gritam “Miolo”. Após adquirir a Almadén (53 anos de história) e a Bodega Renacer em Mendoza, a estratégia foi manter as identidades originais.

  • Almadén: atrai o consumidor iniciante e preserva base fiel no varejo massivo.
  • Renacer: abre portas internacionais com a credibilidade do vinho argentino.

Para Felipe Galtaroça, CEO da Ideal.BI, a separação entre marca corporativa e marca de produto “blinda o valor percebido das linhas premium”.

O gargalo acima de R$ 50 e a resposta da casa

Dados da OIV mostram consumo interno crescendo 41,9% entre 2024 e 2025, na contramão do cenário global. Porém, na faixa acima de R$ 50, vinhos nacionais representam apenas 1 em cada 10 garrafas vendidas. Acima de R$ 100, o grande varejo perde força para lojas especializadas e enoturismo.

A resposta da Miolo é a diversificação radical: rótulos a partir de R$ 26,90 garantem volume no varejo, enquanto o espumante Cuvée Under The Sea, envelhecido a 60 metros de profundidade no mar da França, chega a R$ 3.499,99.

Enoturismo como canal de marca, não só de venda

Cinco vinícolas recebem 300 mil visitantes por ano — 10% do faturamento. Em dezembro de 2025, inaugurou complexo de R$ 15 milhões no Vale dos Vinhedos: loja de 280 m² e tours de R$ 90 a R$ 350. Na Almadén (Santana do Livramento), a experiência custa R$ 70.

“Mais que vendas, é construção de marca”, resume o CEO.

Inovação técnica: ovos de concreto, leveduras selvagens e zero sulfitos

Lançado em março, o Wild Gamay 2026 (R$ 73,90) é vegano, fermentação espontânea com leveduras nativas, sem adição de sulfitos. A nova Cave Giuseppe abriga oito ovos de concreto — tanques que substituem parte das barricas e produzem vinhos mais leves, alinhados ao paladar contemporâneo.

O que observar daqui para frente

A meta declarada para o réveillon: investir R$ 1 milhão em mídia para turbinar espumantes e figurar entre os três maiores fabricantes nacionais (hoje é o quinto). Paralelamente, a empresa mira expansão na Rússia (forte em espumantes) e China (demanda por tintos premium).

Para o executivo ou investidor que acompanha o setor, dois indicadores merecem atenção: a evolução do market share acima de R$ 50 e a capacidade de converter enoturistas em compradores recorrentes de linhas altas. O Brasil deixou de ser apenas consumidor — começa a ser opção nas gôndolas globais.