Saúde

Água de Itapeva: laudo nega parasitas, mas surto de 2,6 mil casos mantém alerta máximo

Torneira com água turva e sinal de alerta vermelho em Itapeva, SP
Água de Itapeva segue com restrições apesar de laudo não detectar parasitas no surto que afetou 2,6 mil pessoas.

Novas análises da Sabesp não detectaram os patógenos responsáveis pelo surto de gastroenterite em Itapeva, mas as restrições de uso da água seguem valendo para toda a população. A investigação sobre a contaminação que atingiu 2,6 mil pessoas em apenas 20 dias ganhou novo capítulo com a abertura de um inquérito político na Câmara Municipal.

O resultado divulgado neste sábado (31) refere-se a coletas realizadas nos dias 27 e 29 de outubro nos mananciais e nas estações de tratamento Aranha e Pilão. Embora as amostras recentes indiquem conformidade com os padrões de potabilidade, a concessionária mantém o protocolo de emergência ativo até que a origem do surto seja totalmente esclarecida.

O que mudou nos números e nas ações emergenciais

Entre 1º e 29 de outubro, a Sabesp realizou mais de 230 coletas que atestaram a normalidade da água distribuída. O cenário, no entanto, foi drasticamente diferente na semana anterior: no dia 19, laudos apontaram material genético do protozoário Cryptosporidium spp. na rede, e no dia 28 o Instituto Adolfo Lutz confirmou a presença do organismo.

Paralelamente, exames clínicos de pacientes revelaram coinfecção pela bactéria Escherichia coli enteroagregativa. A dupla contaminação explica a gravidade dos sintomas — diarreia prolongada, vômitos e febre — que lotaram unidades de saúde e forçaram o cancelamento de aulas na rede municipal.

  • 2.600 casos registrados entre setembro e outubro;
  • Dois patógenos confirmados: protozoário e bactéria de origem fecal;
  • Medidas de emergência: hipercloração, descargas de rede, caminhões-pipa e ampliação de filtração;
  • Atendimento estendido: lojas da Sabesp abertas das 8h às 20h, inclusive feriados.

Impacto direto na rotina e nos custos locais

Para o empresariado local, a instabilidade hídrica representa risco operacional imediato. Restaurantes, hotéis e indústrias de alimentos dependem de água certificada para manter licenças sanitárias e evitar interdições. A necessidade de comprar água mineral ou instalar filtros de emergência eleva custos fixos em um momento de margens apertadas.

A Secretaria de Saúde reforça que a hidratação com soro caseiro ou industrializado continua sendo o tratamento de primeira linha para a maioria dos pacientes. A orientação oficial veda a automedicação, especialmente o uso indiscriminado de antibióticos, que pode agravar quadros de infecção por E. coli enteroagregativa.

Inquérito político pressiona por respostas definitivas

A Câmara Municipal instalou na segunda-feira (26) uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) com 11 vereadores signatários. O colegiado tem 90 dias corridos — com início formal em 4 de novembro e previsão de conclusão entre fevereiro e março de 2027, considerando o recesso de janeiro — para apurar falhas no tratamento, na distribuição e na comunicação de risco.

A investigação legislativa corre em paralelo ao inquérito técnico da Vigilância Sanitária estadual, que rastreia o organismo em toda a rede de distribuição. O diretor de produção da Sabesp, André Rodrigues, afirmou que análises adicionais serão feitas para “dimensionar o problema” além dos pontos já monitorados.

O que observar nas próximas semanas

Três frentes definirão a normalização: a consistência dos laudos diários da Sabesp e de laboratórios independentes; o relatório preliminar da CEI, esperado ainda em novembro; e a curva epidemiológica, que deve cair se as intervenções de hipercloração e renovação de rede forem eficazes. Investidores e gestores de risco devem monitorar a possibilidade de sanções administrativas à concessionária e eventuais pedidos de indenização coletiva, caso a falha no tratamento seja comprovada.