Em 2012, o país vivia uma euforia de “potência emergente”, mas as engrenagens que travariam a economia nas décadas seguintes já estavam lubrificadas. O diagnóstico revela um pacto silencioso entre elites e eleitorado mediano que drenou a capacidade de investimento do Estado. A conta chegou e o risco agora é institucional.
A arquitetura do “Estado duplo” nascida em 1985
A redemocratização não zerou o jogo. A elite econômica, acostumada a subsídios, cargos em estatais e proteção comercial no regime militar, blindou seus privilégios na Constituição de 1988. Em paralelo, o eleitor mediano — majoritariamente pobre — passou a cobrar políticas sociais inexistentes até então.
O resultado foi um Estado que atende a todos: garante benesses ao topo e assistência à base. O custo fiscal dessa equação explodiu, financiado primeiro pela inflação, depois por uma carga tributária que hoje está entre as mais altas do mundo emergente e, por fim, pelo endividamento público.
Por que o modelo funcionou (enquanto durou)
Por um tempo, o arranjo consolidou a democracia. Ao mitigar o conflito distributivo — todos se sentiam contemplados —, a tensão social arrefeceu. A bonança das commodities puxada pela China, somada a um custo de dívida ainda gerenciável, mascarou a ineficiência estrutural.
O crescimento médio de quase 4% ao ano na década anterior a 2012 criou a ilusão de que o ciclo era virtuoso. Não era.
Os freios invisíveis do crescimento
O modelo carrega vícios que anulam a produtividade:
- Carga tributária crescente que pune a formalização e o investimento privado;
- Corte crônico em infraestrutura para fechar contas correntes;
- Economia fechada protegendo campeões nacionais ineficientes;
- Má alocação de capital via distribuição política de subsídios;
- Pressão inflacionária e juros reais elevados como consequência fiscal.
Enquanto a receita da China fluía, o sistema se sustentava. Quando o vento virou, a fragilidade ficou exposta.
A aposta perdida na nova classe média
Havia uma rota de fuga: transformar o gasto social em capital humano. Se a expansão da educação e da assistência tivesse gerado uma classe média instruída, produtiva e segura — capaz de competir com os filhos da elite —, a dependência do Estado cairia. A pressão política migraria de “mais proteção” para “mais crescimento”.
O oposto ocorreu. O gasto social subiu, mas a qualidade do ensino estagnou. Os privilégios do topo aumentaram. Formou-se um eleitorado dependente de transferências, conveniente para máquinas partidárias financiadas por quem captura o orçamento.
O retrato atual da estagnação
Os números não mentem: a desigualdade parou de cair no patamar mais alto do mundo. Mesmo com a multiplicação de verbas, quase 10 milhões de brasileiros seguem na extrema pobreza. O “motor social” emperrou antes de gerar a dinâmica de produtividade necessária.
Sem crescimento, quem não ascende socialmente sente que paga a conta sem receber o troco. O ressentimento alimenta a polarização.
Novos venenos no caldo político
Três fatores externos agravaram a fratura nos últimos anos: a polarização global turbinada por algoritmos, a expansão do crime organizado sobre territórios e instituições, e o choque da Covid-19 com seus custos fiscais e traumas sociais.
Mas o ponto de inflexão mais grave é interno. Redes de influência capturaram o centro do poder, contaminando o principal fiador da estabilidade democrática. O Supremo Tribunal Federal, sob a lógica de proteção de grupos e atuação partidária, deixou de ser árbitro para virar jogador.
O que observar daqui para frente
Não há saída simples para “salvar a democracia” sem enfrentar a equação fiscal que a sustenta. O investidor e o empresário devem monitorar três variáveis: a disposição política para cortar subsídios regressivos (não apenas apertar o cinto do investimento), a capacidade de o gasto social gerar retorno em capital humano e, por fim, a recuperação da autonomia técnica das instituições de controle. Enquanto o pacto de 1985 não for reescrito, o teto de crescimento continuará baixo e o risco institucional, alto.
