Justiça

Perícia aponta: sequência de jogos no São Paulo agravou lesão de Ruan Tressoldi

Ruan Tressoldi com camisa do São Paulo segurando joelho direito lesionado
Perícia judicial aponta que maratona de jogos no São Paulo agravou lesão no menisco do zagueiro.

Uma perícia judicial concluiu que a maratona de partidas impostas pelo São Paulo acelerou a ruptura do menisco lateral do zagueiro Ruan Tressoldi. O laudo, assinado pelo perito Adalberto Soares, estabelece nexo causal “concomitante moderado” entre a carga de jogos e o agravamento da condição no joelho direito. O clube contesta a validade do documento e o caso deve ser julgado na próxima semana.

O jogador, hoje no Atlético-MG, cobra R$ 14 milhões entre salários atrasados e indenizações. A ação tramita desde meados de 2025 e traz à tona falhas na gestão de carga e na documentação de segurança do trabalho do departamento médico tricolor.

Os quatro jogos que mudaram tudo

O ponto central do laudo recai sobre um intervalo de 12 dias, entre 29 de abril e 11 de maio de 2025. Nesse período, Tressoldi atuou os 90 minutos em quatro partidas oficiais consecutivas, sem rodízio ou redução de tempo em campo. Dados de GPS do próprio clube embasaram a análise do perito.

Para Soares, essa sequência “atuou decisivamente na aceleração e agravamento lesivo”. O documento descreve que o esforço exigido incidiu sobre um tecido já fragilizado por degeneração prévia, transformando uma condição latente em lesão estrutural.

O perito foi direto ao responder se condutas do clube contribuíram para o desfecho: sim, apontando a ausência de gestão da carga de jogos como fator determinante.

Faltavam documentos obrigatórios de segurança

Além da gestão de minutos, o laudo registra que o São Paulo não possuía Avaliação Ergonômica Preliminar nem Programa de Gerenciamento de Riscos — ambos previstos nas normas regulamentadoras de segurança do trabalho. A ausência foi tratada como contexto agravante, não como causa isolada.

Essa lacuna documental reforça a tese de que o clube não monitorava adequadamente os riscos ocupacionais a que o atleta era exposto durante o período de maior exigência competitiva.

A defesa do São Paulo e os contra-argumentos

O clube pediu a desconsideração do laudo sob o argumento de que o perito é fisioterapeuta, não médico, e solicitou nova perícia com profissional de medicina. Contesta também a causalidade, alegando que:

  • Em janeiro de 2025, o atleta percorreu cerca de 66 km em treinos e jogos sem lesionar-se;
  • A intensidade dos treinos foi reduzida entre as partidas da sequência criticada;
  • A ruptura meniscal seria evolução natural da degeneração preexistente.

O perito manteve a conclusão original. Segundo ele, a pré-temporada possui exigências fisiológicas distintas de partidas oficiais consecutivas, invalidando a comparação com janeiro.

Recuperação total, mas disputa segue aberta

O laudo atesta que a capacidade laboral de Tressoldi está integralmente preservada. Não há sequela funcional nem dano estético. O zagueiro foi submetido a artroscopia em 8 de julho de 2025 e retornou aos gramados pelo Atlético-MG em 8 de outubro, consolidando-se como titular.

A defesa do jogador, por sua vez, contesta a ausência de sequelas e dano estético no laudo, buscando ampliar a base de cálculo das indenizações pleiteadas.

O que observar daqui para frente

A sentença de primeira instância deve sair nos próximos dias. O desfecho definirá se o São Paulo arcará com os R$ 14 milhões reclamados e, mais amplamente, poderá estabelecer precedente sobre a responsabilidade dos clubes na gestão de carga de atletas com histórico de degeneração articular. Para gestores esportivos e jurídicos, o caso sinaliza a necessidade de protocolos documentados de monitoramento de minutos e riscos ergonômicos — não apenas como boas práticas, mas como escudo legal.