Economia

BNDES libera R$ 880 mi: Cidade de oposição terá 1ª frota 100% elétrica

Frota de 400 ônibus elétricos a bateria em São José dos Campos financiada pelo BNDES com R$ 880 milhões
São José dos Campos terá frota 100% elétrica com 400 ônibus via financiamento de R$ 880 milhões do BNDES.

O BNDES acaba de aprovar R$ 879,4 milhões para zerar a frota a diesel de São José dos Campos (SP), substituindo 100% dos ônibus por 400 veículos elétricos a bateria. O caso é inédito no país, mas o pano de fundo político torna o movimento ainda mais relevante para quem acompanha a transição energética no transporte público.

O maior cheque do Pró-Transporte até agora

O financiamento sai no âmbito do Programa BNDES Pró-Transporte, integrado ao Refrota do Novo PAC, com lastro em recursos do FGTS. O investimento total do projeto atinge R$ 1,139 bilhão, com previsão de entrega completa dos veículos até 2027.

Segundo Aloizio Mercadante, presidente do banco, esta é a primeira aprovação para renovação integral de frota municipal com ônibus produzidos no Brasil. A projeção da instituição aponta que veículos elétricos devem responder por 28% dos licenciamentos de ônibus urbanos no país até 2035.

Modelo de negócio separa ativo de operação

A estrutura contratual foge do convencional. A Green Energy S.A. venceu a licitação para alugar a frota à Urbam (Urbanizadora Municipal), sociedade de economia mista da prefeitura. Na prática, a gestão dos ativos (compra, manutenção, recarga) é dissociada da operação das linhas.

  • Fabricante: Eletra (São Bernardo do Campo/SP), com motores e sistemas WEG.
  • Frota: 400 ônibus elétricos a bateria.
  • Prazo: Entregas escalonadas até 2027.

Esse arranjo reduz o risco operacional para o município e viabiliza o endividamento de longo prazo junto ao banco de fomento, sem onerar diretamente o caixa da prefeitura com a aquisição dos ativos.

A ironia política por trás do marco histórico

Curiosamente, a primeira cidade a capturar o benefício federal de escala é administrada pelo prefeito Anderson Farias (PSD), declaradamente alinhado à oposição ao governo federal. Farias apoiou publicamente a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno de 2022.

O episódio ilustra a dinâmica pragmática dos fundos constitucionais e do FGTS: a alocação de recursos segue critérios técnicos e de maturidade de projeto, independentemente da cor partidária da gestão local. Para investidores, o sinal é claro — a pipeline de projetos “prontos para financiar” dita o fluxo de capital.

Infraestrutura de recarga: o verdadeiro gargalo

Enquanto os ônibus chegam, a rede de energia precisa acompanhar. Hoje, o município opera apenas seis carregadores no Pátio Linha Verde. A meta contratual exige a instalação de 156 carregadores distribuídos em nove pátios.

A responsabilidade pela infraestrutura física de abastecimento é da prefeitura. Isso implica licitações separadas, obras civis, adequação de subestações e negociação de demanda contratada junto à concessionária de energia — variáveis que costumam atrasar cronogramas mais do que a fabricação dos veículos.

O que observar daqui para frente

O caso de São José dos Campos funciona como case study para dezenas de municípios que preparam editais semelhantes. Três variáveis definirão a replicabilidade do modelo: a capacidade da Eletra/WEG de escalar produção sem rupturas de cadeia, a velocidade da prefeitura em entregar a infraestrutura de recarga e o custo total de propriedade (TCO) real desses ativos comparado ao diesel ao final do primeiro ciclo contratual. Quem mapear esses indicadores antecipa as próximas ondas de captação no BNDES.