Tecnologia

Governo corre para votar regulação das big techs em dezembro; janela fecha em 2025

Plenário da Câmara dos Deputados com votação do PL das Big Techs, brasão do Brasil ao fundo
Deputados votam regulação de plataformas digitais em sessão decisiva de dezembro

O governo Lula e o relator Aliel Machado (PV-PR) articulam a votação do PL das big techs ainda em dezembro, antes que a nova composição do Congresso dificulte o avanço da pauta. A pressa não é aleatória: a percepção em Brasília é de que a “janela política” se fecha em janeiro.

Se o texto não passar agora, a tendência é de engavetamento por anos. O que está em jogo muda diretamente as regras de competição para Google, Meta, Amazon e plataformas de delivery no Brasil.

O gatilho eleitoral e a corrida contra o calendário

O impulso decisivo veio das denúncias de interferência no processo eleitoral. No discurso de vitória, Lula citou nominalmente a “intromissão vinda de fora para dentro através de plataformas digitais”, sinalizando prioridade máxima ao tema.

O deputado Aliel Machado, relator na Câmara, já conversou com o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), e levará o texto à reunião de líderes na terça-feira (3). A meta é votar na Câmara e no Senado em menos de 30 dias.

O cálculo político é frio: na próxima legislatura, a bancada de direita cresce nas duas Casas. Nos últimos mandatos, propostas semelhantes — como o PL das Fake News — travaram sob pressão de mobilizações digitais organizadas por esse espectro.

O que o projeto muda na prática para o mercado

Diferente de tentativas anteriores, este PL foca exclusivamente em concorrência econômica, sem tocar em moderação de conteúdo. O modelo espelha o Digital Markets Act europeu: regulação ex-ante, ou seja, regras claras antes que o abuso ocorra.

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) ganha uma Superintendência de Mercados Digitais própria, com poderes para:

  • Classificar empresas como de “relevância sistêmica”;
  • Impor obrigações de interoperabilidade e portabilidade de dados;
  • Vedar self-preferencing (favorecimento dos próprios serviços no ranking);
  • Aplicar multas proporcionais ao faturamento global.

Estão no alvo direto: Google, Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp), Microsoft, Amazon, Uber, iFood e 99.

Resistência do setor produtivo e o “efeito colateral”

A versão original do governo foi criticada por ter redação aberta, podendo enquadrar empresas fora do setor de tecnologia — varejistas com marketplace, bancos com plataformas digitais, indústrias com canais diretos.

O relator apresentou parecer restringindo o escopo, mas associações empresariais consideraram as mudanças insuficientes. O temor é que a definição de “relevância sistêmica” capture players nacionais médios, gerando custos de compliance desproporcionais.

Outro ponto sensível: a diplomacia americana atuou nos bastidores contra o texto em rodadas anteriores, alegando discriminação contra empresas dos EUA.

O xadrez do Centrão e a “bancada digital”

Paradoxalmente, partidos do Centrão agora apoiam a regulação. Perderam espaço no Congresso para a direita, que usa as redes sociais como principal motor eleitoral. Regular o impulsionamento e a propaganda eleitoral na internet virou questão de sobrevivência política para eles.

Hugo Motta admitiu vontade de votar, mas avisou: “não farei com pressa, preciso de consenso entre líderes”. A “bancada digital” eleita em 2024, por outro lado, já se organiza para obstruir qualquer controle.

O que observar nas próximas semanas

Três variáveis definem se o texto vira lei em 2024 ou morre na praia:

  • Articulação Fazenda-Câmara: ainda não houve reunião entre o Ministério da Fazenda e o relator pós-eleição; a iniciativa partiu só do deputado.
  • Texto final do substitutivo: se a definição de “empresa sistêmica” não for cirúrgica, a resistência do agronegócio, varejo e bancos mantém o placar desfavorável.
  • Pauta-bomba do fim de ano: Orçamento, PEC da Transição e indicações ao STF competem pela mesma janela de sessões.

Para quem opera em ecossistemas digitais — seja como anunciante, seller em marketplace ou desenvolvedor de apps —, o recado é claro: prepare-se para novas obrigações de transparência e portabilidade já no primeiro trimestre de 2025, caso o projeto passe. Se travar, a incerteza regulatória continua, mas o risco de multas retroativas por abuso de posição dominante aumenta com a estruturação da Superintendência Digital no Cade.