Economia

BNDES libera R$ 880 mi para cidade trocar 100% da frota por ônibus elétricos: o que muda no transporte

Frota de 400 ônibus elétricos brasileiros em São José dos Campos financiada pelo BNDES
BNDES aprova R$ 879,4 milhões para renovação total da frota com ônibus elétricos nacionais em São José dos Campos.

O BNDES acaba de aprovar um financiamento de R$ 879,4 milhões que vai permitir a renovação integral da frota de transporte público de São José dos Campos (SP) com 400 ônibus elétricos. A operação marca a primeira vez que o banco viabiliza a substituição total dos veículos de um município por modelos a bateria fabricados no Brasil.

O recurso sai do Programa BNDES Pró-Transporte, integrado ao Refrota do Novo PAC, com lastro no FGTS. O investimento total do projeto chega a R$ 1,139 bilhão e a entrega dos veículos está prevista até 2027.

Como funciona o modelo que separa frota e operação

A Green Energy S.A. venceu licitação da Urbam — empresa de economia mista controlada pelo município — para alugar os ônibus, não para operar as linhas. Nesse arranjo, a gestão da frota fica dissociada da operação do serviço, o que permite ao poder público trocar ativos sem mexer nos contratos de concessão das linhas.

A fabricante será a Eletra, de São Bernardo do Campo (SP), que utiliza motores e sistemas da Weg. A produção nacional foi um dos critérios centrais para a aprovação do crédito.

Números que dimensionam o projeto

  • 400 ônibus elétricos a bateria
  • R$ 879,4 milhões em financiamento BNDES
  • R$ 1,139 bilhão de investimento total
  • 156 carregadores previstos em nove pátios (hoje são seis em funcionamento)
  • Entrega escalonada até 2027

A meta de infraestrutura de recarga é ambiciosa: saltar dos atuais seis equipamentos no Pátio Linha Verde para uma rede distribuída que suporte a operação plena da frota zero emissão.

O cenário de mercado por trás da aposta

Segundo Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, a estimativa interna aponta que ônibus elétricos devem representar 28% do total de licenciamentos de ônibus urbanos no Brasil até 2035. O dado sinaliza uma curva de adoção acelerada, puxada por políticas de descarbonização e pela queda progressiva do custo total de propriedade (TCO) frente ao diesel.

O financiamento atual funciona como um caso-teste em escala real: validação de tecnologia, modelo de negócio e capacidade de execução da cadeia nacional.

Um detalhe político que chama atenção

São José dos Campos é administrada pelo prefeito Anderson Farias (PSD), que declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno de 2022. A cidade se autointitula a primeira “cidade inteligente” do país. O fato de ser o primeiro município a acessar o programa federal de frota 100% elétrica sob a gestão Lula cria um contraponto prático: a agenda de descarbonização do transporte avança independentemente do alinhamento partidário local.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar se o modelo se replica em outras capitais e médias cidades: a execução do cronograma de entrega dos 400 veículos até 2027, a implantação efetiva dos 156 carregadores nos nove pátios planejados e a performance operacional real — disponibilidade, custo por quilômetro e aceitação dos usuários — nos primeiros 12 meses de operação plena. Se os indicadores fecharem no azul, a porta se abre para que o BNDES replique a estrutura em dezenas de municípios que já têm estudos de eletrificação parados por falta de lastro financeiro.