Tecnologia

Governo intima Meta: por que perfis sumiram no Instagram às vésperas da eleição?

Governo intima Meta: notificação sobre remoção de perfis no Instagram durante período eleitoral
Senacon notifica Meta exigindo explicações sobre contas removidas sem aviso prévio nas eleições.

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) notificou a Meta exigindo explicações sobre contas e publicações removidas no Instagram e no Facebook durante o período eleitoral. A medida atende a uma denúncia que aponta remoções unilaterais, sem aviso prévio, indicação da regra violada ou chance de defesa. A big tech tem até dois dias para responder — prazo que já se esgotou sem manifestação.

O que motivou a notificação

A denúncia partiu da CTRL+Z, organização sem fins lucrativos cofundada por Daniela da Silva, ex-chefe de políticas públicas do WhatsApp. O documento entregue à Senacon descreve um “padrão reiterado de falha na prestação do serviço” e lista três frentes principais de problema:

  • Remoção unilateral de conteúdos e aplicação errática de regras eleitorais
  • Reversão de decisões apenas após pressão externa, sem explicação técnica
  • Aprovação de anúncios políticos com informações falsas comprovadas

Dois episódios que ilustram o padrão

Em 23 de setembro, o perfil do portal Revelado foi derrubado dois dias após publicar vídeo sobre relações entre o Banco Master e a Igreja Batista da Lagoinha. Horas depois, a Meta alegou “revisão interna” e restaurou a conta — sem detalhar o erro.

Outro caso vem de estudo da organização britânica Eko: pesquisadores conseguiram veicular anúncios com data errada de votação e imagem gerada por IA de um ministro do TSE. O conteúdo falso passou pela moderação da plataforma e chegou ao público.

O que a Senacon quer saber — e os números que importam

A notificação, enviada na sexta-feira (23) antes do segundo turno, exige dados concretos a partir de 16 de agosto, início da propaganda eleitoral:

  • Quantas contas e publicações foram suspensas ou restringidas
  • Quantas contestações usuários enviaram
  • Tempo médio de resposta a cada recurso
  • Percentual de decisões revertidas após contestação
  • Critérios técnicos para cada remoção
  • Estrutura das equipes de moderação no Brasil

Para Luã Cruz, diretor de Litigância da CTRL+Z, a abordagem coletiva da Senacon muda o jogo: “Antes, cada usuário resolvia sozinho. Agora o órgão olha o problema como padrão sistêmico, não caso isolado.”

Riscos reais para a plataforma

Se a Senacon identificar indícios de infração ao Código de Defesa do Consumidor, pode abrir processo administrativo. As sanções incluem multas, determinações de adequação e, em casos graves, suspensão temporária de serviços. O órgão foi enfático: “O usuário de plataformas digitais é consumidor, inclusive quando o serviço é gratuito. Tem direito a informação clara e meios efetivos de contestação.”

A Meta, procurada, recusou-se a comentar o caso.

O que observar nas próximas semanas

A resposta (ou ausência dela) da Meta ditará os próximos passos. Se a empresa ignorar a notificação, a Senacon pode aplicar sanções diretas com base no CDC. Se responder, os números revelarão a escala real das remoções — e se houve viés político, erro técnico ou falha de moderação automatizada.

Para quem anuncia, produz conteúdo ou depende de alcance orgânico, o recado é claro: a relação entre plataformas e usuários brasileiros entrou em novo patamar de fiscalização. Acompanhar os desdobramentos do processo administrativo — e eventual jurisprudência — será essencial para ajustar estratégias de presença digital em 2025.