Duas das maiores casas de análise do mercado rebaixaram o Bradesco (BBDC4) em questão de dias. O JPMorgan cortou o preço-alvo em 31% e o Itaú BBA abandonou a recomendação de compra. A ação fechou quinta-feira (29) a R$ 14,16, queda de 3,54% no pregão.
O movimento sinaliza uma mudança estrutural na visão dos analistas para o setor bancário brasileiro. Não se trata apenas de ajustes pontuais — o cenário macroeconômico projetado para 2027 está no centro das preocupações.
O que mudou nas projeções do JPMorgan
O banco americano foi além do Itaú BBA. Enquanto este reduziu o target para R$ 20, o JPMorgan levou o seu de R$ 26 para R$ 18 — o menor entre as grandes casas. A justificativa central: uma interrupção na trajetória de melhora da rentabilidade que vinha sendo observada nos últimos trimestres.
Os números falam por si:
- ROE projetado: recuo de 15% (2026) para 14% (2027)
- Lucro líquido 2027: ~R$ 27,9 bilhões (crescimento de apenas 2%)
- Expansão da carteira: desaceleração para cerca de 6% nos próximos trimestres
- Margem financeira com clientes (NII): redução de 10 pontos-base
Crédito: onde o freio vai ser sentido
O JPMorgan identificou quatro pilares que sustentavam o crescimento da carteira e que devem perder fôlego simultaneamente. O consignado privado, as linhas para PMEs lastreadas em FGI/FGO, o financiamento de veículos e o crédito para grandes empresas entram numa fase de expansão mais contida.
Essa combinação retira o motor que vinha compensando a compressão de spreads. Com volumes menores e precificação mais conservadora, a margem financeira sofre duplo aperto.
Qualidade dos ativos: o fantasma da inadimplência
O relatório destaca deterioração mais acentuada tanto em pessoas físicas quanto em empresas ao longo de 2027. Os indicadores de inadimplência do varejo seguem em alta, mesmo após ajustes nas políticas de baixa contábil — o que sugere que o problema é real, não apenas contábil.
O custo do risco sobe. As despesas com provisões acompanham. A rentabilidade, que vinha se recuperando, encontra um teto.
O risco escondido na curva de juros
Um ponto pouco discutido, mas relevante: a inclinação mais forte da curva de juros. Segundo a gestão do Bradesco, cada alta de 100 pontos-base na Selic pode gerar perdas próximas de R$ 900 milhões na gestão de ativos e passivos (ALM).
Isso afeta patrimônio, capital regulatório e receitas de tesouraria. Num cenário de juros elevados por mais tempo, o impacto se acumula.
Barato, mas não o suficiente
As ações negociam a cerca de 0,9 vez o valor patrimonial — patamar historicamente atrativo. O JPMorgan reconhece o desconto, mas argumenta que ele não justifica compra sem sinais claros de retomada da rentabilidade.
A preferência declarada segue sendo Itaú Unibanco (ITUB4), visto como mais preparado para navegar no ambiente adverso e potencialmente ganhar market share dos concorrentes.
O que observar daqui pra frente
Três variáveis vão ditar se o cenário melhora ou piora: a velocidade de desaceleração do crédito consignado e veículos, a trajetória da inadimplência no varejo (ajustada por baixas contábeis) e a capacidade do banco de defender spreads num ambiente de menor alavancagem. O guidance do próprio Bradesco para 2025 e 2026, quando divulgado, será o primeiro termômetro real.
