O Conselho Curador do FGTS blindou o orçamento habitacional de 2027 em R$ 144,5 bilhões, repetindo o patamar deste ano. A estabilidade, porém, esconde uma redução programada para daqui a dois anos que atinge em cheio a classe média e o caixa total do Fundo.
O colegiado aprovou também o plano plurianual até 2030. Nele, a fatia para famílias de baixa renda segue intocada, mas os recursos para a faixa intermediária do Minha Casa, Minha Vida caem 33% a partir de 2028. O orçamento geral do FGTS para políticas públicas encolhe para R$ 163,7 bilhões anuais no fim do período.
A divisão do bolo: quem ganha e quem perde
Dos R$ 144,5 bilhões carimbados para moradia no ano que vem, a esmagadora maioria mira a base da pirâmide. A estrutura aprovada prevê:
- R$ 125,5 bilhões para financiamento de famílias de baixa renda;
- R$ 15 bilhões para a classe média no Minha Casa, Minha Vida;
- R$ 13 bilhões em subsídios diretos para baixa renda;
- R$ 4 bilhões na linha pró-cotista (juros reduzidos para quem tem conta no FGTS).
Atenção: subsídios e pró-cotista não são valores “extras” sobre os dois primeiros blocos. Há sobreposição contábil — parte desses recursos já está embutida nos financiamentos principais.
O recado para a classe média: menos crédito a partir de 2028
Se 2027 mantém R$ 15 bilhões para a faixa média, o cenário muda drasticamente no ano seguinte. A previsão plurianual fixa esse teto em R$ 10 bilhões anuais entre 2028 e 2030. É um corte de um terço na capacidade de financiamento de um público que já sente o peso dos juros de mercado.
Enquanto isso, o piso para baixa renda (R$ 125,5 bi) permanece congelado em termos nominais até 2030. Sem correção inflacionária, o poder de compra real dessa verba tende a diminuir ao longo do ciclo.
Saque-aniversário: transição esticada até março
Na mesma reunião, o Conselho prorrogou até 31 de março de 2027 a regra que permite usar até cinco saques-aniversário futuros como garantia de empréstimo. A norma original, de outubro de 2025, previa a redução para três saques a partir de novembro de 2026.
Os limites de valor seguem valendo: mínimo de R$ 100 e máximo de R$ 500 por saque anual. A mudança atinge 12,2 milhões de trabalhadores — 92% deles com renda de até quatro salários mínimos.
O dinheiro que foi para os bancos
Desde a criação do saque-aniversário, a modalidade girou R$ 242,5 bilhões. Desse total, R$ 94,2 bilhões foram sacados pelos trabalhadores. Os outros R$ 148,3 bilhões foram direto para instituições financeiras quitar empréstimos lastreados no Fundo.
O Ministério do Trabalho atribui a queda projetada no orçamento total (de R$ 169 bi para R$ 163,7 bi) a saques extraordinários — contas residuais de demitidos que aderiram ao aniversário — e a empréstimos destinados à área de saúde.
O que observar daqui para frente
O orçamento do FGTS é alimentado pelo lucro anual do Fundo, separado das contas individuais. Com a redução nominal programada para 2028 em diante, a pressão por novos aportes do Tesouro ou por revisão das regras de remuneração das contas vinculadas deve crescer. Para o setor da construção, o sinal é claro: o volume de recursos para a faixa 2 e 3 do Minha Casa, Minha Vida vai encolher. Quem depende desse crédito para viabilizar empreendimentos ou comprar o primeiro imóvel precisa antecipar decisões ainda em 2027.
