A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) acaba de atualizar o mapeamento das áreas mais vulneráveis a inundações no Sul do Brasil. O retrato é alarmante: o risco não é pontual, é estrutural. E a conta, como sempre, chega para quem vive — e investe — nas regiões expostas.
O levantamento cruzou mais de 2 mil eventos climáticos registrados em três décadas. O resultado: R$ 46 bilhões em prejuízos e 1,5 milhão de pessoas desabrigadas apenas na região Sul. Mas o dado que deveria estar na mesa de todo gestor público e privado é outro.
Santa Catarina lidera a exposição; Paraná não fica longe
Nove em cada dez municípios catarinenses possuem áreas mapeadas como suscetíveis a enchentes. No Paraná, a proporção cai para sete em cada dez. No Rio Grande do Sul, o estado concentra o maior número absoluto de cidades em situação de risco muito alto — 115 no total.
Entre elas, Eldorado do Sul, na Grande Porto Alegre. Mais de 20 mil pessoas residem em zonas classificadas como criticamente vulneráveis. Após a enchente histórica de 2024, centenas deixaram a cidade. Um bairro inteiro, dos primeiros a alagar, permanece desabitado. Ainda assim, a Defesa Civil contabiliza 14 áreas de risco ainda ocupadas.
O que mudou no mapa e por que isso importa agora
A atualização não é apenas burocrática. Ela redefine parâmetros de zoneamento, seguro, licenciamento ambiental e valor de ativos imobiliários. Em Uruguaiana, na fronteira com a Argentina, mais de 200 pessoas seguem fora de casa por causa da cheia do Rio Uruguai. A moradora Eva Maria Farias resume a incerteza: “Estou só na esperança de que eles venham dizer: ‘a senhora pode voltar’.”
Na quinta-feira (29), uma simulação de fechamento das comportas testou a agilidade do sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre. O exercício expõe uma realidade: infraestrutura de contenção existe, mas a gestão do território continua falhando.
Dados que todo investidor e gestor deve ter na mão
- Período analisado: 30 anos de registros hidrológicos
- Eventos catalogados: mais de 2 mil
- Prejuízo acumulado: R$ 46 bilhões
- Desabrigados no período: 1,5 milhão
- Municípios SC com risco: 90%
- Municípios PR com risco: ~70%
- Cidades RS com risco “muito alto”: 115
Mudança climática: frequência e intensidade em alta
Segundo Antonio Augusto Borges de Lima, superintendente-adjunto da ANA, “os eventos hidrológicos, por conta de mudanças climáticas, estão ficando mais frequentes e com maior intensidade”. A recomendação técnica é direta: políticas públicas precisam, no mínimo, reduzir a ocupação de áreas com maior vulnerabilidade.
O aposentado Manoel Rodrigues, morador de Eldorado do Sul, traduz o sentimento de quem vive na ponta: “Eu queria era vender, sair fora daqui para um lugar mais alto, sair da beira do rio.” O mercado imobiliário nessas regiões já precifica o risco — ou deveria.
O que observar daqui para frente
O novo mapa da ANA deve basear revisões de planos diretores, alterações em coberturas de seguro rural e urbano, e critérios de financiamento bancário para empreendimentos na região. Quem opera ativos logísticos, industriais ou imobiliários no Sul precisa cruzar esses dados com sua exposição atual. A próxima atualização climática não espera o ciclo burocrático.
